Maria de Lurdes Gouveia Barata
COM ANTÓNIO SALVADO
Os momentos repletos
da ternura das mãos –
melodia de versos
vindos do coração.
(«Cantilena», As Linhas que Perduram)
Ele gostava da Primavera. Há poucos dias dizia-me ao telefone: «quando chegar o tempo mais quente, basta vir a Primavera, fico logo melhor. Vão-se as dores, respiro mais, tenho mais vida». E eu imaginava-lhe o sorriso. E foi perto da chegada da Primavera que partiu. Depois de um dia de chuva contínua e nevoenta, apareceu o sol por entre nuvens e pedaços de céu azul, quando descia à terra. E pensei como este sol também o abraçava na despedida: «antes de o ser, a primavera em chama / de céus abertos cores e de brotos» («Não esqueças nunca», A Plana Luz do Dia). Cúmplice da Natureza, num quadro intimista de irmandade, na caminhada paralela por integração no macrocosmo, cantou as coisas grandes e as coisas simples, porque o canto estava entranhado no seu sangue.
Vejo-o na Avenida Nun’Álvares em passo lento, vejo-o sentado num banco, olhando as árvores, ouvindo os pássaros (e como os seus versos o testemunham!), vejo-o na mesa do café, sentado na minha frente, numa conversa que às vezes se tornava acesa (e avisava de quando em quando: olhe, Milola, não sou o António Forte Salvado, sou o António Fraco Perdido), com um sorriso de graça de diálogo, no entendimento cúmplice de uma opinião, numa audível risada minha devido ao seu humor subtil, na partilha de preocupações, numa troca de confidências ou de conversa brejeira que alguma circunstância de momento provocava. Pequenos gestos engrandecem-se e ganham uma importância nunca dantes considerada, quando se tornam consciência de memória docemente dolorida. Sei da não repetição destes encontros: se estávamos na esplanada do Verão, eu fumava um cigarro, ele, ex-fumador, estendia a mão e perguntava: tem um rebuçado? E eu dava-lho, trazia sempre, e a nossa conversa continuava na companhia do nosso vício – o cigarro e o rebuçado.
Poeta que gostava de divulgar poetas, que gostava de expandir cultura, sempre será lembrado aquele conjunto de palestras, pelo menos mensais, «Já leram a poesia de …?». Passavam efemérides e vinha a poesia. Era o Poeta no rasto da Poesia, fosse pela escrita, fosse pela leitura. É o Poeta de que Albicastro se orgulha com a vastíssima obra que ultrapassa as fronteiras de Portugal, porque traduzida em várias línguas. Estudos sobre António Salvado há já muitos e haverá mais. Quase nada digo do que merece. Fico-me por alguns instantes, que, juntinhos, teceram o nosso tempo de amizade e companheirismo.
Poeta do amor. Poeta da esperança. Poeta das coisas simples («É para vós que eu canto, ínfimas coisas / transbordando de frutos e perfume,» - «Circulação», Águas do Sono). Poeta da Natureza, num canto sem fim que traz o rosmaninho, o alecrim, a alfazema, o tomilho, as estevas, as rosas e um muito mais com frutos, abelhas, cigarras, e um muito mais com jardins e fontes e rios e um muito mais com o «Beijo da Terra» (O Corpo do Coração): «Beijo da terra e terra unida à boca / húmida túmida em calor em frio / ‘spraiados pelos cimos por encostas / em vales em planícies percutidos: // a dádiva perene vegetal / do coração da vida a latejar.». Poeta da luz, que vem do seu olhar de ver, do seu sentir a pulsação da vida, da sua arte de amar as alvoradas de novos dias, alvoradas de futuro, alvoradas de renascimento, que soube ler nos brotos e nas flores primeiras trazidas pela Primavera - «Porque de nadas se constrói a luz: / (…)» («Frémito», O Corpo do Coração) Poeta da paz e da justiça, com palavras poéticas para os desprotegidos, para as mulheres, satirizando falsidades e aleivosias. Poeta apaixonado pela vida, pelo valer a pena viver, apesar de momentos de sofrimento e de solidão, momentos em que a esperança estremece, mas que sempre sabe reavivar. Consciência de «a vida: beijo do tempo» («Pinheiros», Matéria de Inquietação), e um beijo é tão breve!
Falar da poesia de António Salvado é também falar da sua vida, do caminhar na Terra, da sua escrita, que se torna testemunho, dizendo nos dois últimos versos do poema «Epitáfio» (O Corpo do Coração):
Nasci ao fim da tarde – anoitecia –
e cada verso meu vos diz a minh’idade.
E acrescento: «E falemos…» (Com as mesmas Palavras in UM ADEUS SOLIDÁRIO DE TERNURA seguido de COM AS MESMAS PALAVRAS):
E falemos da Vida.
Em cada sulco uma semente espera
com ânsia pelo tempo de florir
e de ser um festim de primavera.
Aguardemos que o sol
dissipe qualquer breu no horizonte,
dominando servidões aos homens
e descobrindo onde o fangal se esconde.
É hora de alegria
Em cada instante troador da paz!
Em frente, num cortejo d’harmonias!
Em frente, no calor da madrugada!
Falar da Vida é sempre ancorar na esperança e na capacidade de renascimento. É ideia reiterada em António Salvado. E o apelo fica nos dois últimos versos.
António Salvado deixou-nos um certificado do seu itinerário (publicou Certificado de Presença, título de um livro de poesia de 1996), tendo eu já dito anteriormente que é ainda um certificado poético. Indestrutível. Atesta uma presença inolvidável.
Homenageemos um grande poeta com outro grande poeta:
A MORTE
E o Poeta morreu.
A sombra do cipreste pôde enfim
Abraçar o cipreste.
O torrão
Caiu desfeito ao chão
Da aventura celeste.
Nenhum tormento mais, nenhuma imagem
(No caixão, ninguém pode
Fantasiar).
Pronto para a viagem
De acabar.
Só no ouvido dos versos,
Onde a seiva não corre,
Uma rima perdura
A dizer com brandura
Que um Poeta não morre.
MIGUEL TORGA, Nihil Sibi (1948)