Lopes Marcelo
MANIFESTO
Manifesto contra a morte dos poetas. A poesia é sempre um acto de paz. O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha. A poesia é sempre desocultação, cúmplice partilha da intimidade entre autor e leitor. Em cada dia, o poeta levanta-se e toma a palavra tornando fecundos e dizíveis os gestos que humanizam de ternura a árida moldura da matéria. No fim dos seus dias a pessoa do poeta parte, mas fica a sua obra como luminosa bandeira dos seus sentimentos, vivências, projectos e sonhos. É o caso do poeta António Salvado recentemente falecido, a quem presto singela homenagem.
À questão, que papel atribui ao poeta? Respondeu Eugénio de Andrade: “O poeta é um primitivo, ama os sortilégios. Mas é em nome desse amor que a sua recusa tem a força de um destino, num mundo que vai abdicando de o ser. Ele é por excelência aquele que diz não à peste negra da mentira e se opõe, implacável, ao rasteiríssimo jogo da vileza institucionalizada. Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?”.
Poeta, não morres a morte fingida de vida maquilhada. Importa viver a vida em carne viva pois tinhas em ti a certeza que há mortes que matam menos que as injustiças da vida. Há mortes que matando a morte, acrescentam e tornam perene a vida.
Cidadão do mundo, irmão da Arte no cantar profundo. Operário das palavras, reinventas e acrescentas o mundo enquanto em ti lavras. Semeador de sonhos, emprestas os teus olhos a quem precisa de vencer medos. E, assim, serão lanterna e farol da inacabada aventura, sondando os humanos segredos.
Sem poesia, o Homem fica mercenário de sentimentos e ideias, decorado com falsos privilégios e circunstanciais cortesias, árido terreno, pó que ao pó há-de voltar, barro descolorido eventualmente sereno.
Poeta, do mundo cidadão e da liberdade fruto maduro, da paz arauto na luta pela verdade. Dos homens irmão na construção da beleza e da arte. Na revolta, na dor e no pranto, nunca se cale a tua voz. Vida eterna ao teu canto!
De forma mais apropriada, celebro com as palavras do homenageado no poema Encontro, do seu livro Águas do sono de 2003:
Essas coisas me buscam: são palavras
à espera de falarem:
sonidos que do peito vão aos lábios
e nos lábios desvendam o incerto.
Por elas passa cada instante surdo,
cada momento de conflito e fúria.
Andam dentro de mim, com elas vivo:
por vezes (raramente) me dão calma:
passeiam-se comigo,
comigo adormecendo até à madrugada.
Que a magia das sua palavras nos convoquem ao reencontro com a sua extensa e fecunda obra. Os poetas não morrem!