Edição nº 1794 - 24 de maio de 2023

Elsa Ligeiro
O INQUALIFICÁVEL MUNDO DA CENSURA

Uma sanha censória percorre o mundo ocidental na tentativa de corrigir livros escritos há séculos. E como é habitual em práticas de censura, tudo executado em nome da justiça.
Em nome do bem comum lá vão apagando ou traduzindo em linguagem inclusiva obras-primas que autores (já clássicos) escreveram com aprumo e arte fixando o mundo que lhes coube em sorte conhecer e imaginar.
A literatura, arte de excelência, fixa como nenhuma outra o percurso do homem e a sua civilização de altos e baixos, de invasões e acolhimentos; heróis improváveis: negros, amarelos, peles-vermelhas ou brancos; sanguinários ou pacifistas; tiranos ou libertários na guerra e na paz.
Numa inqualificável censura em nome do bem, como é sempre o discurso de todos os totalitarismos; as democracias europeias em parceria com a América do Norte (que civilizou) dedicam-se em pleno século vinte e um a corrigir obras literárias para evitar ofensas étnicas ou de género.
E assim entramos a fundo na estupidificação com que é tratada atualmente a arte em geral e a literatura em particular.
Temo que o radicalismo de Franz Kafka seja proibido em breve nas Universidades pela dificuldade em os alunos (e professores) perceberem já a metáfora da “Metamorfose” ou a falta de sentido na narrativa do “Processo”.
Diluir a importância da arte a um ponto de a tornar irrelevante e crítica é também uma máquina de censura eficaz.
Hoje, neste nosso admirável mundo tecnológico, não será necessário recorrer ao triste espetáculo do fogo que os antigos regimes totalitaristas usavam para afastar os cidadãos dessa literatura que corrompia os espíritos mais curiosos e libertários.
A arte que solicita atenção; a que nos interpela nas nossas certezas; a que nos leva a encontros com seres extraordinários que viveram há mil anos; no século passado ou com quem ainda partilhamos o presente é um perigo evidente para a nova ordem internacional.
E para gáudio dos novos censores; só será necessário corrigir e editar à sua maneira. Basta-lhes um teclado.
Sempre em nome da felicidade do povo, criaram a animação permanente (quem lê já a história do sanguinário coliseu que ilustra a decadência dos romanos?); seja através de jogos que mobilizam a multidão, seja através dessa proximidade de ecrã aceso em todos os lugares que vai educando os sentidos e o gosto; preenchendo o vazio que se instala após o trabalho obrigatório de sobrevivência.
Nunca como hoje o preenchimento do tempo livre foi tão preparado para que ninguém fique com tempo para a Leitura, o Teatro ou o Cinema.
A não ser a de obras expressamente criadas para divertir; para consumir com uma cerveja fresca na mão ou um pacote de pipocas na outra.
Depois do trabalho, o importante é o divertimento para esquecer; e o banquete para comer e beber até à exaustão.
Só o tabaco prejudica a saúde; o álcool ainda não afeta o funcionário que cumpre horários de segunda a sexta; a obesidade ainda não é uma catástrofe.
Lá chegaremos. O Estado paternalista não pode tratar de tudo ao mesmo tempo, calma.
Com a correção de livros considerados ao longo de séculos obras-primas pelos seus leitores e críticos, daí a sua sobrevivência até hoje, inaugura-se uma nova ordem ocidental que decreta que não convém desassossegar e interpelar: só divertir.
Os livros que não divertem e que estão cheios de pessoas em sofrimento e com comportamentos imperfeitos, há que os editar de novo. Como deve ser. Sem ofensas ao padrão de desenvolvimento bem estudado por especialistas encartados.
O novo paradigma é uma ilha digital de liberdade, fraternidade e igualdade; sem racismo, fome ou violência. Sem literatura de ficção de lutas racistas ou laborais, pois são uma ofensa à inclusão, à justiça social e ao pacifismo global e financeiro que o ocidente constrói e espalha pelo mundo como um manto de felicidade ao alcance de todos.
Com a ajuda dos corretores eletrónicos a guerra apaga-se; o racismo é finalmente eliminado e a violência terá o seu fim num abraço muito, muito apertado (até à asfixia?), e viveremos todos no mundo finalmente corrigido à imagem do “grande irmão” que George Orwell já anunciou em 1949.
Manuel Vicent (colunista do El País) também já o tinha vaticinado nos anos 80 do século vinte: o que não passar pela televisão deixará de existir na vida das pessoas.
Felizmente Portugal ainda não é bem esse mundo ocidental e desenvolvido.
Ninguém na Assembleia da República ainda apresentou um projeto-lei para eliminar “A Queda de Um Anjo” das livrarias; ou pediu para que se corrija na obra de Camilo Castelo Branco a origem daquele deputado que só chegou ao parlamento pela fortuna do pai; um rico comerciante do Porto que inventou a aguardente de nabo.
Espero que algum deputado (ainda leitor) mais atento proteja o nosso Parlamento do enxovalho a que foram submetidos os seus antecessores na literatura.
Ou que o Reitor de alguma Universidade decida retirar do ensino “O Primo Basílio” de Eça de Queirós, por nos mostrar, com a nitidez de um espelho, o saber inchado dos conselheiros acácios que as universidades ainda teimam em profissionalizar.
Mas a História ensina-me que mais tarde ou mais cedo também este tipo de correção eletrónica da edição de obras literárias chegará a Portugal.
Só peço que todo este mundo limpo da imperfeição chegue o mais tarde possível; apenas o suficiente para já não me encontrar com vida.
Os sobreviventes já terão apagado a luz da inquietação e do desassossego; e viverão felizes: do berço até à sua última morada.

24/05/2023
 

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