Valter Lemos
AS NOVELAS POLÍTICAS E A SILLY SEASON
Está quase a começar o Verão. Na linguagem política e jornalística é o tempo da falta de notícias, pois que os políticos também merecem férias como os outros e à falta de notícias políticas, a comunicação social ocupa-se com coisas mais mundanas e até, por vezes, absurdas. Daí o rótulo de silly season.
No entanto, este ano, parece ter havido uma silly season antecipada, mas envolvendo a política e o jornalismo, numa autêntica telenovela.
Tudo começou com Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente na sua prolífica interpretação do seu papel de presidente, com produção diária de declarações, comentários e bitaites, foi insistindo na existência de possibilidade de eleições antecipadas, ou seja, de queda do governo ou dissolução da Assembleia da República. A comunicação social delirou. Os esforçados repórteres da SIC, TVI, CNN e até RTP, passaram a questionar durante todo o dia, todos os atores políticos sobre o assunto. Os respetivos comentadores passaram a ocupar permanentemente a antena com a discussão de infindáveis cenários e a análise psicológica dos atores envolvidos. Foi dado como assente e definitivo que o Governo estava acabado.
Por sua vez o Governo, que aparentemente até poderia vir a beneficiar de tanta tontearia, resolveu deitar gasolina no fogo da TAP, o qual até já estava a perder intensidade.
A inenarrável conferência de imprensa do ministro Galamba foi uma festança para comentadores e repórteres que, já estavam a meter os microfones no saco, ainda que a resmungar alguns impropérios. Afinal parecia que tinham perdido uma boa oportunidade de produzir a queda do governo que, como sabemos, é o orgasmo profissional de qualquer jornalista ou comentador televisivo que se preze.
Como sempre o omnipresente Marcelo deu a sua contribuição pedindo publicamente a cabeça do ministro. Face a tão grande presente do Governo e uma “carta de conforto” tão segura do presidente renasceram as almas nos estúdios de televisão e nas redações. Contra o Galamba, os ministros, o Costa e o PS foi a palavra de ordem.
Mas a reação de António Costa foi um saco de gelo na fogueira. Não a apagou, na verdade, mas provocou uma imensa gargalhada em todos os que viram as expressões de incredulidade e engulho que encheram os estúdios das televisões… Ainda agora me rio sempre que me lembro.
O espetáculo a que se assistiu nas televisões é digno de ficar na história para ser estudado com atenção. A histeria e mesmo insanidade, a que assistimos, por parte de comentadores e repórteres e também os atores políticos, é quase inacreditável. Valerá a pena rever no futuro estes dias nas televisões, designadamente nos canais noticiosos. Mas também aquelas inacreditáveis sessões da comissão de inquérito e as figuras ridículas de alguns deputados, que se sentiram estrelas televisivas por um dia. “Afinal senhor ministro foi ao minuto 24 ou ao 26?”. Pode dizer-se que toda a história resulta, afinal, de uma incapacidade ou incompetência política e até ingenuidade do ministro na gestão da sua equipa e da comunicação política, mas também é verdade que os deputados se mostraram mais interessados no seu papel de atores de novela do que nos aspetos substantivos da gestão do processo da TAP que é aquilo que deveriam estar a fazer.
Após toda esta silly story, que ainda não acabou, mas já esfriou no interesse de grande parte dos portugueses, o que virá na silly season?
Continuará esta espuma política ou haverá finalmente uma viragem para o que importa? Afinal de contas, parece que o país está melhor… de contas. Não será altura de aproveitar o tempo e o dinheiro para transformar mais a realidade em vez de arranjar novelas? E isto cabe primeiramente ao Governo, mas não só. Talvez o presidente possa falar menos e sobre coisas mais substantivas e talvez a comunicação social possa mostrar e comentar um pouco mais os aspetos substantivos da política e da vida com uma ação mais jornalística e menos novelística. Até porque de novelas já bastam as inúmeras dos canais generalistas, não fazem falta na informação.