Edição nº 1796 - 7 de junho de 2023

Guilherme D'Oliveira Martins
EDUARDO LOURENÇO: PENSAR CULTURA E ARTE

Foi lançada, na cidade da Guarda, a 23 de maio, data do nascimento do homenageado, a reedição da Fotobiografia de Eduardo Lourenço, da autoria de Manuela Cruzeiro, Maria Manuel Baptista e Fernanda de Castro, com a chancela Bertrand. Prosseguiram, assim, as celebrações do centenário do nascimento do ensaísta, iniciadas na Fundação Calouste Gulbenkian a 28 de março. Saliente-se, além da publicação de treze volumes da Obra Completa, o ultimo dos quais sobre “O Labirinto da Saudade”, a distribuição do suculento número da revista “Colóquio – Letras”, dedicado a Eduardo Lourenço e Eugénio de Andrade, bem como da revista “Finisterra”, que o ensaísta dirigiu, com riquíssima colaboração.
Se há escritor que precisa de uma leitura muito atenta da obra, na sua diversidade e complexidade, ele é Eduardo Lourenço. Quem quiser tirar conclusões apressadas, arrisca-se a errar redondamente, uma vez que o ensaísmo do pensador se baseia num panorama abrangente e complexo sobre a cultura como ponto de encontro de diversas experiências de diálogo e criatividade. É, por isso, importante a análise do seu percurso.
Encontramo-nos perante a procura de um caminho de rara coerência, no qual o ensaísta se procura, sem a ilusão de poder considerar-se satisfeito com essa diligência. Carlos de Oliveira foi dos primeiros a considerar a obra “Pessoa Revisitado”, como o romance que o ensaísta nunca fez, mas que nos deixou devidamente encenado e com um precioso conjunto de reflexões que revelam a chave de um mistério que antes de Eduardo Lourenço estava por desvendar – o do sentido de unidade de uma obra de uma personalidade que normalmente era apresentada em rutura consigo mesma. Se Eduardo Lourenço se digladiou com Pessoa para que este revelasse quem era verdadeiramente, o certo é que também foi fazendo esse exercício relativamente a si mesmo, pelo que Heterodoxia é a tentativa de abrir um caminho de liberdade que pudesse trilhar sem ter de pagar tributo que não resultasse apenas da condição de ser artífice do pensamento.
Correndo o risco de ser considerado trânsfuga (que não foi), o ensaísta, na linha de Montaigne e de Sílvio Lima, preferiu aventurar-se singularmente em campos incertos que lhe permitissem desconstruir o que era comummente aceite. E assim usou o romance de Fernando Pessoa para poder, a um tempo, descobrir-se e sobretudo encontrar-se no mundo.
“Com Caeiro fingimos que somos eternos, com Campos regressamos dos impossíveis sonhos imperiais para a aventura labiríntica do quotidiano moderno, com Reis encolhemos os ombros diante do destino, compreendemos que o Fado não é uma canção triste, mas a tristeza feita verbo e com Mensagem sonhamos uma pátria de sonho para redimir a verdadeira. Quem sonhou todas estas ficções foi o passeante da Rua dos Douradores, um homem triste por não existir como se sonhava irmão gémeo por dentro de Luís de Baviera, prisioneiro como ele de idênticos fantasmas”. Aqui encontramos o resumo da diligência fundamental empreendida por Eduardo Lourenço. Em lugar da multiplicação de personagens, a obra de Pessoa surge como uma “sinfonia de uma só nota, destinada a cobrir o outro lado do sonho que é para ele a Morte”.
Daí a referência à Baviera de sonho do rei mítico. “O mito é o nada que é tudo”. E assim Fernando Pessoa torna-se uma espécie da “pedra de roseta” da “presença” e da geração do ensaísta. E que dizia ele? “De uma maneira clara, cintilante, era que, nos vários sentidos da Palavra, Deus tinha morrido. Mas no imaginário português, Deus nunca morre, inclusive para ele que o teve de inventar de outra, maneira. No entanto, isso era uma provocação tão forte, uma destruição de todos os códigos da poesia, da crítica, dos valores, da ética, da política, de tudo”. Pessoa era, assim, para o ensaísta o desejo que toda a juventude tem de que o mundo acabe e comece outra coisa, uma espécie de apocalipse, no sentido de revelação ou de diligência de descobrir.
No percurso do ensaísta e pensador, sentimos a lição fundamental de Eduardo Lourenço, tendo a seu lado Annie, como referência segura de uma vida e como permanente e amorável desafio. E fica a revelação essencial do mistério que o escritor prosseguiu até ao fim de sua vida. “Que ninguém tem pátria como coisa sua, como um objeto, como coisa própria, e que é nesta ausência de pátria que assenta a sua impensável identidade”. Eis a chave da referência à língua portuguesa por Bernardo Soares no “Livro do Desassossego”. Assim mesmo, Camões, Antero e Pessoa são uma espécie de guardiães da heterodoxia autêntica, como lugar-comum portátil da nossa alma, como referência complexa e inexplicável. E eis o Portugal presente na obra do cultor do sonho e da vontade, longe de qualquer ilusão. “Puro mito, resumo da mitologia passada, mas aberto para um futuro ainda sem nome… e assim ao abrigo da morte”.

07/06/2023
 

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