Antonieta Garcia
TURISTAS E FÉRIAS
“Anda o Verão por onde andar, no São João há de chegar”, sabe o povo. E desta feita cumpriu. O Verão já entrou! A sua palavra, misturada com férias, tem magia, e Alice vagueia connosco por países de maravilhas que cada um conhece e aprecia como lhe apraz.
Férias, tempos livres, associados à ideia de turismo alimentam a ideia de conforto, sempre simpática. Afiança uma promessa a haver (imaginar) de prazer, de liberdade, de deleite. É um tempo efémero que certifica leveza ao quotidiano, às vezes, tão pesado que não há quem o ature. E ainda assim.… dizia-me um amigo, numa rua cheia de sol, com piscas piscas eletrónicos a anunciar uma temperatura para cima dos trinta e tal graus:
- Até falar faz calor.... e pensar...
- Pensar devagar, falar de mansinho... é receita deliciosa? Não será solução, mas ajuda... Férias rimam sempre com viagem, com uma qualquer ponta de liberdade...
Meu Deus, jornadear é tão bom! Para onde? Todos procuramos a nossa Pasárgada, como a criou Manuel Bandeira: Vou-me embora para Pasárgada / Lá sou amigo do rei (…) Lá a existência é uma aventura / (…) Em Pasárgada tem tudo / (…).
E tudo se conjuga para o entendimento e o encantamento da saída, com bandeiras de cetim: Fui ao São João à Guarda / Da Guarda fui ao Bonfim / Encontrei tudo engalanado com bandeiras de cetim. Da Guarda para Pinhel, estava tudo enfeitado com bandeiras de papel... Partir, cada um à sua dimensão, significa a demanda de uma aventura diferente, única.
Mesmo quando o turista elege uma gesta religiosa e constrói peregrinações de sacrifício, não deixa de narrar a crença na viagem criativa de harmonia entre as ordens humana e divina. Ébrio de sagrado, o turista religioso é um peregrino de um ideal. A aventura de cada um tem caminhos, contornos e veredas… À maioria une-os a fé, a busca de paz consigo próprio, com a divindade, com a comunidade, analisam uma forma de se ser feliz.
Neste universo, místicos falam do bem-estar, da felicidade, meditação.... do diálogo possível com o Transcendente, que determinados espaços e sacrifícios favorecem.
O Verão já entrou. Bem vindo seja! Desta vez, trouxe novas gentes. Diferentes. Cores muito vivas invadiram as ruas e disseram outras culturas; estranhas formas de vestir e de rezar, de pensar, viajaram para ensinar. Este turismo enobreceu as nossas terras. As férias em Portugal têm agora interesse maior.
Cruzamo-nos diariamente. Saúdamo-nos. Só com um sorriso, que às vezes, só lemos nos olhos e num leve inclinar de cabeça, que se traduz numa aproximação afetiva capaz de louvar o bem-querer que nos desejamos.
Outras viagens faremos. No tapete de feiticeiro, voaremos a ouvir as historias de encantar de mundos distintos. Gentes de alma ao léu soltam anseios, descobrem caminhos de luz.
E lembramos este entretecer secular de laços que atámos com ânimo. Vieram judeus e outros povos (em menor número), e vivemos durante séculos, trocando saberes e fazeres. Re-encontrámo-nos e reatámos o convívio fraterno… Tarde demais?
Interroguei o meu amigo:
- Preferes o Inverno ou o Verão?
- O Verão! É sempre possível encontrar a sombra de uma árvore… No Inverno, não se apanham fogueiras!