João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTA SEMANA, na saída desta edição da Gazeta do Interior, quase coincidem o dia de Carnaval e o Dia dos Namorados. No primeiro, é pressuposto morar a alegria extrovertida, diversão e desinibição. Festividades cada vez mais distantes do Entrudo, da minha juventude como da de muitos leitores, mas que ainda assim é um dia muito especial para a criançada. A desembocar numa Quarta-Feira de Cinzas e Quaresma… que coincide com o Dia dos Namorados, dia em que é pressuposto morar a felicidade, a alegria que rejuvenesce, enche o coração e dá um brilho especial aos olhos e à pele, um dia onde mora o futuro. Se o Carnaval dura três dias, o namoro há de durar muito mais, mesmo que não seja para toda a vida. Citando Inês Meneses (Máquina de Escrever Sentimentos, Contraponto) “o amor é benigno quando é mesmo amor.” E quando o amor não é amor, não é benigno e não tem futuro, pode significar opressão e violência, física e psicológica.
Um problema que já afetou de forma pontual ou continuada tantos jovens e menos jovens: uns espantosos 53 por cento dos estudantes do Ensino Superior que participaram no Estudo Nacional da Violência no Namoro em Contexto Universitário, relativo a 2020 e 2021, afirmam já ter sido sujeitos a pelo menos um ato de violência no namoro, e refiro este estudo porque haverá ainda a ideia socialmente preconceituosa de que isto acontece principalmente em meios sociais de menor escolaridade e economicamente desfavorecido. Mas que mais posso acrescentar ao que já foi escrito, e muito bem, pela psicóloga clínica Patrícia Bernardo na edição da Gazeta do Interior de há duas semanas?
Quero acreditar que uma educação dos sentimentos, na Família e na Escola, pode ajudar a que o namoro seja bem mais que a celebração do Dia dos Namorados, uma invenção comercial para fazer vender muita coisa, chocolates e flores em particular. Importante é que seja um sentimento, mesmo que passageiro, que nos traga felicidade, vivida no momento ou para a vida, porque a relação amorosa, além de contribuir para o crescimento emocional dos jovens, para o bem estar pessoal, é também contributo importante para a coesão da comunidade.
Como escreve o sociólogo italiano Francesco Alberoni no seu clássico Enamoramento e Amor, Bertrand Editora, “o enamoramento é o estado nascente de um movimento coletivo a dois. O enamoramento não é um fenómeno quotidiano, uma sublimação da sexualidade ou um capricho da imaginação, nem tão-pouco um sentimento sui generis inefável, divino ou diabólico, antes pode ser inserido numa classe de fenómenos já conhecidos, os movimentos coletivos. O namoro é feito por duas pessoas. Numa determinada estrutura social, o movimento divide o que estava unido e une o que estava dividido para formar um sujeito coletivo novo, um nós que no namoro é feito pelo casal do amante-amado.”
E é assim que deve ser visto. Como uma componente da essência humana, vivida no momento e sem drama (o que não invalida a presença da tristeza). Termino com as palavras de Inês Meneses, “o amor acaba quando vem para jantar e não foi convidado. Talvez o amor acabe quando as palavras já não nos encontram.” Divirtam-se, amando-se.
Para ler, com Gosto de Ti, de Luísa Sobral, e Ilumina-me, de Pedro Abrunhosa, em som de fundo.