João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTRANHAMENTE, A RÁDIO E TELEVISÃO PÚBLICAS são o patinho feio dos média, pelo menos na opinião publicada e no destaque que se dá aos conteúdos, quase sempre de uma qualidade superior aos dos canais privados. E com a preocupação de não impregnar de motivações ideológicas, ou melhor dizendo, do controle político na programação, um facto amplamente reconhecido e que é mérito da administração chefiada por Nicolau Santos. É um verdadeiro serviço público de rádio e televisão, expurgado de reality shows e telenovelas intermináveis e em contínuo que enchem o horário nobre, de segunda a sexta, dos dois canais generalistas privados. Disputam décimas de audiência, gabam-se de vitórias pífias, mas que estão a perder em toda a linha para os canais em streaming e a perder os espetadores mais jovens e os mais cultos. O serviço público também se manifesta na disponibilização de recursos gratuitos e essenciais. Nunca é demais referir a RTP Play, instalável em qualquer televisão recente que também agrega os programas de radio. E sem esquecer a riqueza de conteúdos disponibilizados na RTP Palco e RTP Arquivos. É assim que o serviço público de rádio e televisão enfrenta os novos tempos tecnológicos de uma forma que ombreia ou mesmo supera os média privados.
Puxo este tema para o apontamento desta semana porque a Antena 1 lançou por estes dias algumas rubricas que vêm enriquecer a programação de uma rádio de palavra, como já foi a TSF (os novos donos são uma lufada de esperança na sobrevivência do projeto). E o sinal dos tempos é o inicio da colaboração de Fernando Alves, fundador dessa mesmo TSF e sua voz ícone durante dezenas de anos. Encontra na estação pública de rádio o ambiente de trabalho que já não encontrava na sua TSF de sempre, economicamente sufocada por uma administração incompetente e nada transparente. Uma voz a juntar à de Sena Santos, Inês Meneses, João Gobern, David Ferreira ou de Miguel Esteves Cardoso.
E É NUMA RECENTE CRÓNICA DIÁRIA de Miguel Esteves Cardoso (MEC), publicada no jornal Público, que me inspiro para uma breve reflexão. Escreve ele que à nossa volta estão paisagens e modos de vida que estão a morrer e nós, distraídos, sem sabermos. Temos de apanhá-los antes que morram, alerta, nem que seja em forma de despedida. É o que ele sente quando vai a comprar jornais e todos os outros clientes estão a comprar boletins de apostas. Todas as mortes são anunciadas. Nós é que não sabemos ler os anúncios. E depois há quem chore pelo que já não existe, conclui o MEC.
É um assunto, um problema, que toca principalmente quem ainda não dispensa ter um jornal em cima da mesa no café. Em Lisboa, no Chiado, choca-me ver o quiosque em frente da Vista Alegre, sem qualquer jornal exposto. Não será certamente porque ali se aglomeravam leitores interessados apenas nos títulos das primeiras páginas expostas. O que é isto senão una morte anunciada? Em Castelo Branco, o quiosque principal da cidade que já chegou a ser espaço de tertúlia, é agora fundamentalmente casa de jogo. Com uma seleção dos jornais locais ou regionais que disponibiliza para venda. Isto não é uma morte anunciada? Sim. E para alguns, é também talvez uma morte desejada.