João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
O CIMENTO DE UMA COMUNIDADE são os traços identitários, complexos e multifacetados que abrangem várias facetas da vida em comum, das relações de vizinhança e que reforçam os sentimentos de pertença. A aldeia rural, como as da nossa Beira (ainda) é o melhor exemplo exemplo de pequena comunidade onde as famílias vivem em proximidade e compartilham recursos e valores. A transformação de aldeias em comunidades que rompem barreiras sociais é um fenómeno interessante. Na maioria das nossas aldeias não há doutores ou engenheiros, os mais velhos tratam por tu os mais novos, e os mais novos tratam com respeito os mais velhos juntando ti ao nome. A ti Preces trata-me com amizade simplesmente como João, com carinho especial por ser filho da Rosarinha.
E é desta forma que, num mundo perfeito e distinto, se desenrolam as relações sociais numa comunidade da nossa Beira. O que a torna distinta e lhe dá identidade são os traços identitários, que a comunidade assume de forma natural sem questionar. São diversos os aspetos que moldam a cultura, os valores e as práticas compartilhadas por seus membros É a historia compartilhada, incluindo eventos marcantes vividos por todos ou apenas por uma parte significativa. São as tradições gastronómicas, os costumes, as celebrações festivas. É também na oralidade, na entoação que se assumem os traços distintivos. Qualquer um consegue distinguir pela entoação um natural de Alcains, Benquerenças ou Cebolais. São diferenças que não são fáceis de explicar, entre povoações que distam meia dúzia de quilómetros entre si.
A globalização já diluiu alguns traços como o vestuário, mas a gastronomia continua em grande parte a marcar a identidade comunitária. A inspiração para esta crónica foi a minha anual degustação da gargula, as pétalas tenras da flor de marmeleiro. Da partilha da experiência nas redes sociais, resultou a constatação de que eram muito poucos os que, fora da minha aldeia, conheciam o pitéu (a palavra era completamente desconhecida), que por sinal, até pode experimentar em alguns restaurantes com estrela Michelin. Tal como constataria se se referisse as bataratas, termo local para identificar o tubérculo tupinambo, usual na cozinha da freguesia de Benquerenças, desconhecido em freguesias contíguas e que se vende nos mercados de produtos biológicos de Lisboa ou de Londres. Por isso a gastronomia é talvez o mais forte traço identitário das nossas comunidades. Falamos das papas de carolo de Alcains, como falamos das bicas de azeite e do enchido de Malpica, das migas de peixe de Alfrívida ou das tigeladas e broas de mel de Benquerenças. A gastronomia tradicional das nossas aldeias é mesmo um dos traços identitários mais marcante num mundo global, em rápida mudança.