Edição nº 1844 - 15 de maio de 2024

Lopes Marcelo
FUNDAMENTOS DA ARQUEOLOGIA REGIONAL

Nos conturbados dias actuais, de incontrolável aceleração do tempo que vivemos, assumo remar contra a maré das modas e da voragem das notícias e, em contra corrente, opto por partilhar com os leitores vertentes históricas que considero essenciais. Refiro-me hoje à vertente fundacional da Arqueologia da Beira Baixa que nos remete para a vida e obra de Francisco Tavares Proença júnior que, no último ciclo de cem anos foi pouco divulgada.
O reconhecimento científico das descobertas aconteceu no Congresso Pré-histórico de Perigueux em 1905. Vale bem atender ao relato do nosso jovem arqueólogo aquando da sua destemida e notável viagem de Coimbra a França.
Ah! Coimbra! Reconheço que não me adaptei à vida superficial do ambiente académico em que a juventude se consumia em noitadas, bebedeiras e outras futilidades. O melhor que me aconteceu em Coimbra foi a colaboração com a Secção de Arqueologia do Instituto de que me tornei sócio correspondente e ter contado com a aceitação simpática do seu presidente, o Dr. Bernardino Machado. Foi em representação do Instituto de Coimbra que participei no congresso de Perigueux sobre pré-história em Setembro de 1905. Na longa viagem de comboio fiz a revisão dos estudos relativos aos trabalhos e pesquisas realizadas no Monte de São Martinho em povoado que deu origem a Castelo Branco, tendo sido encontradas duas estátuas-menir, uma com figuras de guerreiros geminados, outra com um antromofo com cinturão. e diversas figuras ligadas à caça datados de cerca de mil anos antes de Cristo.
As escavações realizadas no monte de São Martinho revelaram materiais cerâmicos e metálicos, confirmando a ocupação humana da Idade do Bronze (1000 anos a.C.). Contudo, o monumento mais completo e rico de informação tem em destaque um antropomorfo e diversas figuras ligadas à caça. É muito provável que estivesse fincado no topo do monte com funções sociais e religiosas. Atendendo à forma fálica pode ter sido venerado com ritual de fertilidade.
Encontrei no Congresso um ambiente extraordinário, sem vaidades, os maiores sábios daquele tempo falavam e ouviam com interesse tudo o que era apresentado, respeitavam-se mesmo quando tinham dúvidas e formulavam perguntas. Reagiram com surpresa e muito entusiasmo às descobertas no Monte de São Martinho. Senti-me entre iguais e nem a minha juventude afastou o interesse e o afecto dos velhos sábios. Entusiasmei-me e falei-lhes da obra de Camilo Castelo Branco com ligações ao criador da pré-história Gabriel Mortilet. Para contactos e visitas a locais de pesquisas arqueológicas já muito avançadas na França da época, por lá fiquei mais uma semana. Por tudo o que aprendi, foi a confirmação de que a minha opção e dedicação à arqueologia era a grande vocação da minha vida.
Regressado do congresso de Perigueux tive a grata surpresa de receber a condecoração do governo francês de Ófficier de l´Instrucion Publique. Era bom que o meu pai tivesse ficado um pouco mais convencido do valor dos meus estudos arqueológicos e ter o seu filho nomeado Oficial da Instrução Pública do país das luzes. Estes prémios concedidos em país estrangeiro valem mais do que aqueles que cá em Portugal são dados a quem os quer.
Passado mais de um século, no monte de São Martinho ainda muita história estará enterrada. Assim, é essencial desenvolver escavações e investigações que poderão revelar com maior fundamento a matriz fundacional da nossa cidade. Oxalá as Autarquias, Junta de Freguesia e Câmara Municipal não fiquem surdas e mudas.

15/05/2024
 

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