Maria de Lurdes Gouveia Barata
SALIENTE-SE O 5 DE MAIO - DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA
Mês de Maio, mês das flores, mês de Maria, mês dos amores – diz o provérbio. Mas também Maio é mês de Primavera e de pujança da Natureza, que se torna crescimento a seguir às primeiras germinações, tão anunciadas pelas temperaturas deste Abril passado. O nome parece dever-se à deusa grega Maia, deusa da terra e das flores e à deusa romana Maia Maiestas, que espalhava uma energia vital, que trazia consigo a fecundidade e o renascimento. Todavia, não vou propriamente falar da beleza de que se veste a Natureza. Às vezes, traz o medo que provoca numa fúria trovejante, como outro provérbio prognostica: Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada ou, numa outra versão, quando em Maio não troa (troveja), não é ano de broa. Lembro- -me de ouvir à minha avó vem aí o mês das trovoadas, referindo-se a Maio. Não me agradava nada, sempre me assustei com trovoadas. E, por isso, remetendo-me de novo aos provérbios, digo que antes não quero comer broa (e aprecio) e, se Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada, eu não quero saber dessa coisa estimada, que fica no mistério de se desconhecer o que é.
Maio tem dias para comemorar, todos os meses têm. Neste caso, destaca-se o 1º de Maio como Dia do Trabalhador, importante no seu significado. Maio como mês de Maria impregna-se de peso religioso em Portugal, devido às celebrações de Fátima.
Porém fixo-me em 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa. Todos conhecem a famosa frase de Fernando Pessoa, «a minha pátria é a língua portuguesa», e outros escritores a ratificam como, por exemplo, Mia Couto, dizendo que a língua é mãe, pátria e vida. O poder identitário da língua leva pelo caminho que conduz a formação da identidade individual e colectiva, moldando a visão do mundo num contexto sociocultural e histórico. Como linguagem, a língua assume uma força especial, porque não contam apenas as palavras, dela emerge um reflexo da nossa história, da nossa cultura, da nossa identidade. Tornam-se também relevantes as palavras de Olavo Bilac, jornalista, contista, cronista e poeta brasileiro (1865-1918), na ideia de língua como pátria: «A pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos económicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo». Mais proximamente da nossa cultura portuguesa, não resisto às asserções de Vergílio Ferreira («À voz do mar», espaço do invisível V, 1998, pp.83-84): «Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor, como na de outros se ouvirá a floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação. Assim o apelo que vinha dele foi o apelo que ia de nós. E foi nessa consubstanciação que um novo espírito se formou, como foi outro o espírito da Europa inteira na reconversão total das suas evidências».
Depois desta apologia da importância da língua, deve fazer-se o alerta para a sua defesa, perspectivando (brevemente embora) os males e perigos que a afectam, para os quais concorrem frequentemente os próprios falantes e escreventes. Recorro a José Saramago: «(…) a frente principal da luta pela sobrevivência da língua portuguesa está no próprio país de origem: se nele se perder, há muitas probabilidades de que venha a perder-se nos outros lugares do mundo que a falam.» Outra advertência de Vergílio Ferreira («Defesa da língua», espaço do invisível IV, 2ª edição, 1995, p.100) sobre a defesa da língua: «(…) o uso fácil e medíocre de fórmulas, vocábulos, giros de frases que têm que ver, como no caso das telenovelas brasileiras ou da submissão a estrangeirismos desnecessários, não com uma reacção activa, mas com uma total passividade e falta de dignidade na afirmação do que é nosso, ou seja, do que é nós.» [alerto, porém, para a referência a giros de frases nas telenovelas brasileiras – o autor não está contra o português do Brasil, a crítica vai noutra direcção; como alerto para estrangeirismos desnecessários, há aceitação de outros que podem enriquecer a língua, que não vou agora especificar devido ao espaço disponível].
Vejamos: «A CEO chegou acompanhada da coach e do chairman. Vinham dum briefing onde surgiram guidelines. Ela tem know how e grande look (não havia de vir com jumpsuit!). No coffee break falou de vários assuntos relativos à Empresa»
Vejamos de novo: «A Administradora chegou acompanhada da assessora e do presidente do conselho da empresa. Vinham duma reunião de informação onde surgiram directrizes. Ela tem conhecimento e grande aparência (não havia de vir com macacão!). No intervalo do café falou de vários assuntos relativos à Empresa.»
Apesar destes estrangeirismos dizerem sobretudo respeito ao mundo empresarial, a verdade é que são termos utilizados na televisão e nos jornais, que têm como destinatário o grande público. Considero-os desnecessários e sobretudo impeditivos da clareza e compreensão da mensagem. E desprezam a língua portuguesa. Será por snobismo?
Natália Correia, no belo soneto «Língua Mater Dolorosa» (O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II, 1993, p.74) de crítica agressiva para defesa da língua, censura a falta de cuidado em tratá-la, levando-me a transcrever os dois tercetos finais:
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda… mas de vaca.
Cabe a cada um de nós enaltecer a língua, cuidando-a e nunca a desvalorizando em qualquer momento. Finalizo com um poema:
DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA
Nobre fêmea de séculos de vida
mas hoje vergastada a toda a hora
arrasta-se enrugada perseguida
por tratado infeliz que a desvigora.
E a maltratam mil bocas ignorantes
manchando-lhe a nudez tão feminina
e essa ignorância vil que não termina
cobre-a com arrogância de perfis britantes.
Porém de novo audaz ressuscitada
à sombra de Camilo d’ Eça ou de Vieira
que ela volte a erguer a força inteira
que outrora a suportou quando ultrajada.
Que floresça a cantar na fixa radiosa
certeza do que foi e venha a ser:
fragrância secular de linda rosa
que as pétalas jamais há-de perder.
ANTÓNIO SALVADO