Edição nº 1845 - 22 de maio de 2024

João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...

ESTA PASSADA TERÇA estive na apresentação de livros de dois bons amigos, José Guardado Moreira (JGM) e José Manuel Castanheira (JMC). Um dos livros, Um Fio de Lume, tem a poesia de JMM ilustrada pelo JMC. O melhor dos dois mundos. O outro é Litogramas, poesia numa edição graficamente cuidada, como já é habitual na editora Licorne, que agora é residente em Idanha-a-Nova. São nomes incontornáveis da cultura, atrevo-me a dizer que são nomes que fazem parte do património cultural Albicastrense. Que têm sido incompreensivelmente subvalorizados. Os dois são autores de uma já vasta obra publicada; JGM também com um trabalho de crítico literário e tradutor, reconhecido em jornais e revistas de referência; JMC é arquiteto já com marca distintiva na paisagem da cidade (os edifícios da Avenida de Espanha conhecidos por todos como os prédios dos bordados de Castelo Branco), professor universitário, cenógrafo e artista plástico de renome e prestígio que ultrapassa fronteiras.
Os dois são meus amigos, e não são de fresca data, de há mais de sessenta anos. É uma amizade que nasceu e se foi cimentando em anos de adolescência vividos numa pequena cidade de província. Tão pequena, que um bairro que agora é centro urbano, o considerávamos como arrabalde, e foi por nós batizado em reminiscências cinematográficas por West Side. Os dias corriam devagar, por isso havia muito tempo para alimentar as amizades com pequenas e pueris aventuras, com partilhas de interesses literários, musicais e políticos (também) em tertúlias juvenis na Belar, muitas cumplicidades e alguns amores que perduraram para além da adolescência.
Numa pequena cidade de província dos anos sessenta era ainda mais rígida a fronteira da liberdade, do que se podia ou não fazer, ler ou ouvir. Chegavam aqui os ecos muito difusos, porque distantes, do Mundo. Maio de sessenta e oito, revolta dos estudantes americanos contra a guerra do Vietname. Pouco, muito pouco, sobre os movimentos clandestinos dos jovens Portugueses contra o nosso Vietname africano e contra um regime que nos oprimia; chegavam algumas vozes da América contra a descriminação racial, mesmo sob a forma de apartheid, que entendíamos através do ativismo de Ângela Davis que, ao lado de Che Guevara, decorava as paredes do nosso quarto (por interesse estético ou ideológico), ou na voz de Aretha Franklin e Otis Reding. Mas havia também a novidade dos festivais que nos faziam sonhar com outras formas de viver a juventude, Woodstock ou Ilha de Wight, sonhar uma vida hippie que, sabíamos, nunca teríamos coragem de trilhar.
E tudo isto foi vivido por mim e pelos meus amigos José Guardado Moreira e José Manuel Castanheira, tudo o que gerou um território comum de pertença às duas dezenas de amigos, mais que antigos colegas de liceu, que esta terça-feira quiseram vir a Castelo Branco, conviver e participar na apresentação dos livros que, de uma forma ou de outra, ajudaram a fazer chegar às mãos dos leitores. Porque a amizade é tudo isto. Nos anos sessenta éramos felizes nesta pequena cidade de província e não o sabíamos.

22/05/2024
 

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