Edição nº 1845 - 22 de maio de 2024

Elsa Ligeiro
AS SERRAS E OS RIOS DE DIAMANTINO GONÇALVES

Encontrar o Diamantino Gonçalves era receber prendas que ele ia distribuindo como um mágico habitante de montanhas e rios.
Uma ruína ou uma inscrição até aí incógnita aos que por ela passavam; um pormenor ou caminho das invasões francesas; histórias camilianas do século XIX de salteadores ou condenados à forca injustamente; toda uma diversidade de relatos que Diamantino Gonçalves desencantava e nos oferecia com inigualável entusiasmo.
As suas fotografias só existiam realmente pelas histórias que as acompanhavam; as outras, sem histórias, revelavam a paciência de um homem que colhia o belo da paisagem, como o poeta o ouro do dia.
Recordo um convite que lhe fiz para apresentar a Serra da Gardunha em Coimbra e, para espanto meu, ele intitulou “Da Gardunha ao Choupal”.
Esperava belas imagens da Serra para testemunhar a propaganda que eu ia fazendo da Gardunha, e ele: “Elsa, eu não sou um homem de palavras”, dizia-me, humilde, naquela tarde, na Galeria Santa Clara, onde era o convidado especial do projeto “Em Nome da Beira”, para nos falar da sua e nossa Serra da Gardunha.
E sai-nos com o Padre Estêvão Cabral, nome de uma rua movimentada de Coimbra, mas que ninguém na sala conhecia o motivo exato de tal distinção.
Afinal, o jesuíta era de Tinalhas, aldeia do concelho de Castelo Branco, e que, em pleno século XVIII, tinha desenvolvido um projeto para o aproveitamento das riquezas da Serra da Gardunha; que, “obviamente”, ficou na gaveta.
E o Choupal?
D. Maria I pediu ao Padre Estêvão Cabral que regressasse de Roma, onde se tinha refugiado após a expulsão da sua Ordem pelo Marquês de Pombal, para ajudar, com a sua matemática e visão de futuro, o desenvolvimento do país com obras relevantes na área da hidráulica, e, entre elas, o encanamento do Rio Mondego com a sua Mata do Choupal.
Diamantino Gonçalves tinha descoberto (e fotografado) a inscrição numa capela contínua à igreja matriz de Tinalhas que dava conta de que ali repousavam os restos mortais do padre jesuíta Estêvão Cabral. E, curioso como uma criança, investigou.
Nasce assim a biografia que a jornalista Lídia Barata escreveu sobre o seu conterrâneo, graças ao Diamantino Gonçalves.
Biografia que foi escrita e muito adiada a publicação por falta de apoios institucionais.
Só em 2023, seis anos após essa tarde em Coimbra, em que Diamantino Gonçalves iluminou um esquecido padre jesuíta, natural de Tinalhas, o livro foi editado e distribuído.
Felizmente a aposta foi ganha e o livro encontra-se praticamente esgotado; mas fosse ele um fiasco comercial não o lamentaria; pois há situações em que o risco é, por si próprio, uma belíssima vitória.
Esta é apenas uma das descobertas que devo (devemos) a Diamantino Gonçalves.
Mas há também as gravuras rupestres do Zêzere, rio que tem em Janeiro de Cima, aldeia onde nasceu Diamantino Gonçalves, uma das suas manifestações de beleza mais impressionantes.
Na inesquecível tarde, em Coimbra, alguém nos levou um recorte de um jornal de âmbito nacional, onde vinha publicada uma notícia sobre a descoberta das Gravuras na Barroca do Zêzere; aldeia onde um grupo partilhou esta e outras alegrias, numa Residência Alma Azul na sede das Aldeias de Xisto, em que as fotografias de Diamantino Gonçalves fixaram também, nessa Páscoa de 2017; a misteriosa e pagã Procissão das Pinhas.
Diamantino Gonçalves era um homem de causas, mas delas falarão melhor os seus camaradas; a mim resta-me as nossas conversas sobre Artur Portela e outras personalidades que o fotógrafo de serras e rios admirava, nunca faltando no seu discurso o apelo à justiça e ao reconhecimento que eles mereciam.
Na Lousa ou em Penamacor, no Fundão ou em Tinalhas; os encontros com o investigador Diamantino Gonçalves eram sempre de um entusiasmo contagiante; iluminando com histórias do passado o que nos rodeia e que vamos perdendo por não o valorizar como um ativo do presente.
Também em Alcains deixou a sua contribuição generosa ao inaugurar, na Livraria Alma Azul, uma exposição de imagens sobre o signo das Pedras que ele sabia serem eternas para a nossa dimensão humana.
E que Diamantino Gonçalves nunca se cansava de fotografar, numa valorização da memória que nos deve sempre acompanhar: como um precioso hino à vida e à alegria.

22/05/2024
 

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