Edição nº 1921 - 19 de novembro de 2025

Lopes Marcelo
UM MAR DE ONDAS DE VIDRO?

Se há questões essenciais e comuns a uma comunidade ou a uma região, são as relacionadas com o seu território. Entendido não só como chão que pisamos, locais e espaço onde se realizam todas as nossas actividades, mas como casa comum, base concreta da sobrevivência das sucessivas gerações e referencial histórico da sua herança produtiva e cultural que, pela acção do presente tem de acautelar o futuro. A defesa, a preservação e a valorização do nosso território é, de facto, uma questão colectiva transversal a todas as dimensões em que os nossos interesses e ideias, sendo saudavelmente livres e plurais, nos podem dividir ou, até, antagonizar e confrontar. Sendo essencial, não pode deixar de nos interpelar, de questionar a nossa consciência, de causar impacto e de nos mobilizar para a reflexão e para a acção, quer individual, quer acima de tudo colectiva.
Como os leitores, provavelmente, já se aperceberam, está em causa a instalação dos mega projectos de painéis solares na nossa região. Está em causa o exagero na escala, a enormíssima dimensão de áreas contíguas em que se pretendem concentrar tais estruturas de painéis, utilizando centenas de hectares de território contínuo, sem importar se são terrenos férteis, se há agricultura a produzir, se há flora e fauna a proteger, se há floresta, se degradam linhas de água, se há ecossistemas e equilíbrios ambientais a preservar, se há caminhos e acessos a salvaguardar, se há paisagens e turismo de natureza a garantir…
É tudo em grande, demasiado grande. Até o nosso povo diz: -“quando a esmola é grande, o pobre desconfia.” Claro que não se trata de qualquer “esmola”, algo bem intencionada ou benemérita, mas de interesses, de grandes interesses de quem está por detrás de tais mega projectos. E, já agora, quem é que dá a cara por tais interesses? São só estrangeiros? Devem existir alguns portugueses, pelo menos como capatazes ou frios tecnocratas executores de tais grandes interesses que querem usufruir do nosso território ocupando-o com uma espécie de mar de ondas de vidro, qual condomínio fechado, que já não sendo feudal, preste vantagens e vassalagem aos novos senhores feudais do dinheiro. Mais cedo do que tarde, deveriam dar a cara por eles ou por quem lhes paga. Se tais pessoas pensavam e contavam que lá para “essas terras do interior abandonado, vivem cada vez menos pessoas e cada vez mais tristes e resignados parolos”, desenganem-se! Irão desenganar-se na proporção e na razão directa da dimensão da nossa indignação e capacidade de reação, quer popular, quer institucional.
Saúdo as reacções espontâneas traduzidas nas recentes manifestações em frente aos Municípios na ocasião da tomada de posse dos novos autarcas. De facto, os novos e os renovados autarcas, tendo visto a sua legitimidade renovada nas recentes eleições, são titulares de grande responsabilidade na defesa do nosso território. Têm eles a voz principal, a mais importante e decisiva que nos representa a todos. Oxalá a fundamentem no sentir do interesse colectivo, nas razões de carácter técnico e científico que aqui não há espaço para explanar, mas, também, nas razões sociais e culturais, de identidade territorial que merecem a indignação dum grito d´alma a que me associo.
A dimensão económica e social do valor dos investimentos para as comunidades locais e para a região, a vantagem e o sentido de futuro das energias limpas; constituem uma vertente que importa considerar. Contudo, tem que ser feita enquadrada no ordenamento do território, num mosaico articulado de projectos, por áreas descontinuadas, em equilibrado respeito pela biodiversidade, respeito pelas linhas de água e em solos que, pelo relevo ou pela sua composição esquelética, sejam marginais para as actividades produtivas. Porque é que se não segue o exemplo das torres eólicas, com regras e renda para as autarquias?

19/11/2025
 

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