Edição nº 1935 - 25 de fevereiro de 2026

Joaquim Bispo
CONFRONTAÇÃO

(Anteriormente: O pintor pré-rafaelita Gabriel Rossetti, o seu amigo William Morris, inventor idealista, e a sua mulher, Jane, modelo de pintura de ambos, refletem sofre a antinomia competição/cooperação, enquanto jogam strip-poker. Rossetti conta o caso Leonardo da Vinci vs Miguel Ângelo, em confronto direto, ao pintarem murais em paredes opostas de um salão oficial.)

Continuação: Leonardo era, talvez, mais reconhecido - continuou Rossetti -, mas o ascendente Miguel Ângelo tinha acabado de produzir a marcante estátua de David. A competição pela aura de maior artista do tempo estava em jogo e resolvia-se nesta contenda decisiva. A comparação, frente a frente, não podia ser mais incontornável. Quem perdesse o confronto ficaria, compreensivelmente, humilhado e seriamente debilitado, em termos de estatuto artístico.
- Estás a querer comparar essa confrontação com uma partida de poker? - quis saber Morris.
- Sim; perdoai se a comparação vos parece abusiva. Na verdade, cada um conhecia alguns pontos fortes do outro, mas não sabia que “cartas” ele ia apresentar. Leonardo apostou no que conhecia bem, pelos inúmeros estudos que tinha feito: cavalos. Os seus desenhos preparatórios mostravam, na parte central, o embate terrível de dois pares de cavaleiros, em que parecia que cavalos e cavaleiros se interpenetravam, no choque. O virtuosismo do desenho dos animais e as faces de terribilitá dos cavaleiros eram “o par de ases” em que Leonardo pretendia apoiar o restante “jogo”.
Miguel Ângelo apostou na sua experiência de desenho do corpo humano, compondo um enorme cartão preparatório onde eram representados muitos soldados florentinos nus, no momento em que tinham sido surpreendidos, pelo exército pisano, a tomar banho no rio Arno. A sua musculatura supra-humana e a composição arrojada seriam as “cartas” de contraposição ao “jogo” do adversário.
Passaram, talvez, dois anos, sem que as paredes do salão vissem os traços planeados. Estariam a adiar o momento em que, finalmente, tivessem de mostrar o que estavam a preparar e não mais pudessem fazer bluff? Não sabemos. Certo é que Miguel Ângelo nunca passou o desenho para a parede, e Leonardo passou parte, mas usou uma inovadora combinação preparatória do suporte que correu mal - a tinta escorreu quase toda para o chão. Não será crível, mas até parece que esse desaire tenha sido intencional. Para adiar o confronto não desejado e até temido.
Cada um deles foi entretanto chamado para outros projetos e não chegaram a mostrar a força da sua “mão”. Eis a deplorável herança que a competição nos legou - a perda de duas obras de arte que seriam, provavelmente, extraordinárias.
- Na verdade! - comentou Jane. - Mas não vejo a relação com o nosso jogo…
- Se o jogo perverso que os acirrou à disputa os tivesse, pelo contrário, incentivado à colaboração - explicitou Rossetti -, poderíamos hoje contemplar as obras-primas que as “roupas” da competição esconderam. Eis os malefícios da competição. Por isto, eu colaborei em perder este nosso jogo. Se eu teimasse em tentar ganhá-lo - sorria matreiro -, corrias o risco, minha boa amiga, de não chegar a contemplar a plenitude desta obra que, sem ser prima, tem autenticidade pré-rafaelita.
Dizendo isto e em gestos largos, atirou fora o resto da roupa, para grande gáudio dos amigos.
- Tonto! - ria Jane, divertida. - Dizes isso porque não sabes jogar. E já vias que ias perder.
- Ora, ora - gracejava Morris, fingindo zombar do amigo - tanta conversa para isto? Afinal, estavas a fazer bluff!

25/02/2026
 

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