Edição nº 1936 - 4 de março de 2026

Guilherme D'Oliveira Martins
CONHECER MELHOR PORTUGAL

O efeito tremendo dos temporais no território obriga a virarmos a nossa atenção para um melhor conhecimento de Portugal, para a prioridade ligada ao património cultural, para o planeamento e a prevenção e para o ordenamento do território. Eis uma lição que temos de tirar, para que o improviso dê lugar à ponderação e ao cuidadoso estudo das condições para a defesa e salvaguarda do bem comum.

Acaba de ser publicada uma nova reimpressão do primeiro volume do “Guia de Portugal”, graças à generosidade da Fundação Gulbenkian. Mais de cem anos sobre a sua publicação, é uma justa homenagem, bem merecida, a Raúl Proença. Não se trata de um roteiro atual, mas de uma memória presente que os leitores têm acarinhado e continua a ser um símbolo nas melhores bibliotecas dos portugueses. A qualidade original merece uma atenção especial, num momento em que está em curso a criação de um novo instrumento digital para permitir um melhor conhecimento do património cultural português, à semelhança do que existe para o Património de Influência Portuguesa no mundo (HPIP), com a coordenação inesquecível de José Mattoso. Ramalho Ortigão dizia que “Nada há no mundo mais saborosamente aprazível para um coração lusitano do que viajar, simples, modesta, obscuramente em Portugal”. Como tem feito recentemente José Sá Fernandes, com o “Guia de Portugal” nas mãos, descobrir Portugal é uma exigência e um dever. E nestes dias, sob os efeitos da catástrofe climática, o amor à terra, o planeamento, a proteção e a memória são mais urgentes que nunca. Se há política pública da cultura que seja verdadeiramente prioritária e urgente é a do património cultural como realidade viva, como conhecimento, defesa, preservação e salvaguarda do que recebemos e ligação à criação contemporânea. A belíssima capa da autoria de Raul Lino une tradição e modernidade e apela ao culto da beleza e da paisagem, enquanto dever de qualidade e equilíbrio. Como ensinou Gonçalo Ribeiro Telles, ao intervir na paisagem a pessoa humana participa no ato sublime de Criação. Raul Proença diz no pórtico deste saudoso livro, que ele foi sonhado “nos verdes vales, nos rios plácidos e nas montanhas decorativas da minha terra, nas suas costas de enseadas azuis e de esburacadas grutas misteriosas (sonoras no marulho das ondas como enormes búzios ressonantes), no deslumbramento da sua luz epitalâmica e sob as suas grandes estrelas dormentes – e feito pelo amor e pelo espírito de veracidade de alguns Portugueses, para conciliar e adjurar a infinita piedade portuguesa merecendo talvez, pelo muito que outros fizeram e farão, e pelo pouco que eu vier ainda a fazer, ser denominado com justiça – o Livro do Amor e Devoção de Portugal”. Sim, é disto que se trata. Para amarmos a nossa cultura, a nossa terra, as nossas gentes, neste ponto de encontro de mil diferenças, Finisterra, “onde a terra se acaba e o mar começa”, temos de reconhecer a nossa História como convergência de diferenças e ponto de partida para a demanda do desconhecido e dos outros que nos completam. É Portugal que em viagem se prolonga no mundo e que precisamos de conhecer palmo a palmo, olhos nos olhos. Hoje, solidariamente com quem sofre, olhamos o futuro com muita exigência, planeando, prevenindo, antecipando, e dando-nos as mãos para que façamos o que tem de ser feito.

Elegemos o novo Presidente da República, sob a evocação antiga de “unir os portugueses e servir Portugal”. É um novo tempo que se abre. É a regeneração da Pátria que está na ordem do dia e nos obriga ao trabalho, à atenção e ao cuidado. E se falei do amor à cultura e da prioridade à defesa e preservação do património, da herança e da memória – falo, sobretudo de pessoas e das suas angústias e das suas esperanças e da vontade de vencer as terríveis adversidades.

04/03/2026
 

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