Antonieta Garcia
QUE É DO NOIVO?
Vale a pena conhecer uns e outros, umas e outras; todas e todos. Assim, ficam mais compostinhos.
Na sala, ainda se ouvem gargalhadas oleosas. Ao lado, no mundinho dos pequeninos, as janelas recebiam no parapeito pombas que esvoaçavam, soavam e piscavam palavras para diálogos que eles sabiam, eles sabiam...
- Malandras, sujam espaços enormes, mas ninguém lhes toca.
As janelas são grandes... Precisa-se luz. Que fazer? O que as chama? Reforçam as buscas, se há camélias e rosas luminosas. Pela Quaresma, embrulham um país cheio de mercados para celebrar a festa. Aquece-se a invernia. No sossego dos pátios, as saudades mandaram parar o tempo primaveril. Estão aí! Não tardam as boas-vindas para o entendimento de todos! E os bolos de azeite cheiram bem e os esses, as cavacas, os biscoitos de três pernas... são paraísos que todos querem provar.
O menino ouve canções, a avó autoriza a que mexa na massa, divertem-se, esforçam-se, cansam-se gulosamente.... Emburrica! Agora, encostado na almofada, adormeceu. Foi há pouco: fechou os olhos, sorriu; ajeitou os braços e a cabecita... O ó, ó, ó, ó... - deixou de ouvir-se... Tanto bolo! Chiu! Até o rouxinol acompanha as toadas das estrelas... O menino, com muito soninho, dormia... e sorria.
Na cozinha, as mulheres já cantarolavam baixinho, embalando as palavras de amigos, de irmãos num mar fraterno de paz.
Sonho que trago comigo, as ordens do meu Anjo da Guarda. Abre-me as asas para ir para onde?
Na alva, hoje, o Céu é de Santo! O azul, o amarelo, o dourado, o vermelho e cor-de-rosa descobrem o que querem. Portugueses sempre foram navegantes, sonhadores, descobridores... Quem ajuda? Ensinai-me que eu me calarei...
Nos ventos voejaram ironias perdidas de solidão. Inventar a esperança num país agrilhoado, é um rumo... Há tantos!
Naquela época, como dizia Mário Dionísio, nós amávamos muito e sabíamos pouco.
Com a nossa revolução, nasceram-nos um novo Sol no coração e um tapete de contos. De vez em quando, visito-os. Falamos.
Quem quer casar com a Carochinha? Emagreceu. Amiga duma Fada disparatada ora, ora, varre, varre, à procura de paixão...
A fala doce e conventual dormia com o peito no Jornal. Na mão, repousava o João Ratão.
Depois veio uma galinha, da linha de Cascais. E um magalinha. Não precisávamos de mais para comemorar a festa. Assim, ou se salva a galinha, ou como o João Ratão, o tal, que fora cozido e assado num caldeirão. Pobre João Ratão. Quem vem salvar as personagens idosas? A Carochinha triste, triste, chorava:
- Ai, o meu João Ratão, cozido e assado num caldeirão!
No corredor da sala, no tapete de contos, cruzei-me de novo com a Gata Borralheira, mas não apareceram as irmãs feias da velha historieta. Abalaram?
Tontas, coradas e aperaltadas, tinham-se deslocado ao Baile dos Reis... Deixaram só a pobre Gata rodeada de ratazanas. Fechou-se na garrafeira, com ratos, ratinhos e ratões...
Em casa, roeram tudo o que havia. A guitarra do fado português enrolou-se e riu com as guitarradas.
A Fada Madrinha resmungou, deu três murros na mesa, atacou a viola e cantou:
- Vou ao baile, ora essa... Juro que vou! Lá vou eu!
Por ter a mania de ser moderna, avisou que ia ao Corte Inglês comprar o vestido, o véu e os sapatos...
- Ora agora viras tu! Ora agora viro eu?
Viraram, pois.
A Carochinha adquiriu, nas Antiguidades, uma vara de condão. Disse: Fico-me pelo Fundão... Até à lua de mel.
Bailei, bailámos todos... Eu bati o pé! Isso bati.
O som da festa calou-se. Cansados!
Com o amor contaminado pelo sonho foram expulsas velhas serpentes. O veneno não passou. Reitero: vale a pena conhecer uns e outros, umas e outras; todas e todos.
- Quem quer casar com a Carochinha que ela é linda e engraçadinha?
Que é do noivo?...