João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
MAIO MADURO MAIO, QUEM TE PINTOU?
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou
...cantava José Afonso no seu Cantigas de Maio, obra-prima da música popular portuguesa.
Estamos no mês de maio, altura de se festejarem as Maias ou o Maio, conforme as regiões ou os locais. São crenças e festejos pagãos, que em Portugal parecem remontar ao tempo da ocupação romana e que encontramos referenciados de norte a sul, um pouco por todo o território rural (Jaime Lopes Dias dá um importante espaço a esta tradição na sua Etnografia da Beira), já que estão associados ao despertar da natureza e à renovação da vida. As origens das Maias residem na sua forte ligação a antigos rituais pagãos, que celebravam o equinócio da primavera e a fertilidade da terra. A giesta amarela desempenha um papel central nesta tradição, até por ser abundante nesta época do ano. Mas outros sítios há em que são diferentes as flores que celebram o Maio. Na minha aldeia, como noutras da zona de xisto, é o rosmaninho que nestes dias embeleza as terras e alimenta as abelhas, que dá a cor e o aroma às celebrações.
Estes ritos ancestrais manifestavam-se através de atos simbólicos, destinados a assegurar colheitas abundantes e a afastar os espíritos malignos que pudessem ameaçar o bem-estar da comunidade. Sendo uma festa pagã, chegou mesmo a ser proibida várias vezes em Portugal, até através de Carta Régia, uma vez que remetia para celebrações pré-cristãs, já que Maia era a deusa romana da fecundidade. Mas é uma tradição tão enraizada que continua a resistir à globalização. Esta resistência ao desaparecimento demonstra a profunda relevância cultural que estas tradições possuíam para as comunidades. Ainda este fim de semana pude participar, na aldeia do Peral, Proença-a-Nova, na Feira dos Caprinos que tinha também a celebração das Maias como mote.
Na minha vida de moço criado numa comunidade rural, lembro da mitologia do Maio. No dia primeiro de maio, ia-se apanhar ramos de rosmaninho florido, ou rosmano como dizíamos. Com ele enfeitávamos as portas e janelas, a frontaria da casa, para que o Maio não entrasse e comesse os chouriços, ou fizesse outras malvadezas. Enfim, pretendia-se proteger a casa dos males do Mundo (quando o nosso mundo ainda era do tamanho dos horizontes que avistávamos).
Os anos passaram, os mais novos saíram para outras paragens, França, Lisboa… Os mais velhos deixaram de matar o porquinho para fazer chouriços e o rosmaninho que invadia os campos meio abandonados, deixou de ser necessário para afastar o Maio. Mas houve sempre até hoje quem, como fiel depositário dos saberes e práticas ancestrais, mantivesse viva a tradição do rosmaninho. Pela minha parte, peguei num braçado do belo rosmaninho e com ele se enfeitou a porta de entrada.
Para que o Mal não entre e que não se quebre o encanto do Maio, maduro Maio...