Guilherme D'Oliveira Martins
BIBLIOTECANDO EM TOMAR
Pelo décimo sexto ano consecutivo, realiza-se nos dias 8 e 9 de maio o festival literário Bibliotecando em Tomar, numa organização conjunta dos Agrupamentos das Escolas Nuno de Santa Maria e dos Templários, em ligação com a Câmara Municipal de Tomar, o Centro de Formação “Os Templários’’, Centro Nacional de Cultura, Instituto Politécnico de Tomar e a Rede de Bibliotecas Escolares. Este ano será homenageado Valter Hugo Mãe, um autor referencial com uma obra vasta, multifacetada e premiada, que será discutida, refletida, analisada e interpretada num diálogo envolvendo perspetivas diversificadas e complementares. O tema em torno do qual se centram os debates e as reflexões deste ano é «Entre o natural e o construído», a partir das tensões dilemáticas entre tais realidades. Num tempo de grandes incertezas e de cenários imprevisíveis, nos quais a guerra e o medo do outro e das diferenças se manifestam – estamos perante a contradição insanável entre a natureza e a criatividade humana. Assim, o património cultural vê-se confrontado entre a exigência de respeito pelo que herdamos das gerações que nos antecederam, onde avulta o direito e a dignidade humana, e a necessidade de lançarmos as bases de uma ordem humana centrada na cultura da paz.
No tempo presente, esta reflexão ganha novos contornos com a emergência da inteligência artificial e das tecnologias digitais, que vieram confrontar as conceções tradicionais de «natural» e de «construído». Afinal, a tecnologia torna-se um novo modo de memória, urgindo distinguir o que é do domínio dos meios e o que pertence aos fins. E para que não haja inversão de valores, importa não nos tornarmos meros instrumentos do progresso técnico. Distinguindo fins e instrumentos, devemos salvaguardar o primado da dignidade humana, pondo o progresso material ao serviço da humanidade, numa sociedade que deseja prosseguir um caminho no sentido de um mundo melhor. Daí a necessidade de transformar a informação em conhecimento, compreendendo o poema de T. S. Eliot: “Quanto conhecimento se perde na informação, / Quanta sabedoria se perde no conhecimento”. Eis o que importa desvendar.
Bibliotecando em Tomar tem sido um fecundo espaço de partilha e de escuta, onde se cruzam diferentes perspetivas— da literatura às artes plásticas e visuais, da política social às preocupações científicas, ecológicas, da inteligência artificial ao senso comum. Importa recordar um belíssimo texto de Valter Hugo Mãe onde nos fala do lugar central das bibliotecas na construção da humanidade. Diz-nos ele: «As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir.» (JL, 2013). É este o espírito que nos anima. Desejamos, como sempre nas iniciativas que desenvolvemos, ligar a leitura à capacidade de viajar no tempo e entre vários tempos. E permito-me recordar o entusiasmo desta equipa extraordinária que continua a tornar viva esta fantástica experiência. Não esqueço, por isso, quem me desafiou a vir até aqui – o Embaixador António Pinto da França, com o espírito de abrir horizontes novos, tornando Tomar um centro de ideias e uma sementeira riquíssima de criação e inovação. Agradeço ainda especialmente a quem tem sido a verdadeira alma do Bibliotecando em Tomar, a Doutora Agripina Carriço Vieira, sem cujo entusiasmo e determinação não teria sido possível chegarmos até aqui, com uma grande esperança nas possibilidades de futuro, na realização plena de uma sociedade de cultura e de aprendizagem. Numa história já longa, em que todos os participantes trouxeram sempre algo de novo em cada pedra que fomos pondo no caminho, não esqueço momentos heroicos, como aquele em que tivemos um diálogo singularíssimo ente Eduardo Lourenço e José-Augusto França, fazendo jus à ideia de tornar o Bibliotecando o paradigma do encontro sublime que Umberto Eco considerou ser a realização de uma “Biblioteca do Mundo”, na qual acontece muitas vezes irmos em demanda de um livro ou de um autor, mas descobrimos outras obras de cuja existência não suspeitávamos e que, todavia, se revelam tão importantes a ponto de poderem mudar destinos…