Valter Lemos
EDUCAR PARA O ÓDIO?
Discursos de ódio e machismo estão a aumentar nas escolas
Cresce a preocupação com casos de misoginia contra raparigas, que proliferam de norte a sul do país, denunciam diretores e associações
Jornal de Notícias, 26/04/2026
Há poucos dias a primeira página do JN anunciava o que todos já intuíamos, mas fazemos de conta que não existe. A sociedade portuguesa sofre da mesma doença que tem proliferado pela Europa e pela América no século XXI.
O discurso de ódio que tem invadido as sociedades ocidentais está a miná-las por dentro. E as escolas estão já a mostrar os efeitos dessa destruição dos valores democráticos e liberais.
Após a 2ª guerra mundial a Europa e outras partes do mundo começaram a construir uma sociedade orientada pelos valores da paz, da liberdade e dos direitos humanos e mais recentemente do equilíbrio ambiental. E durante várias dezenas de anos estas sociedades foram bem-sucedidas nessa missão, tendo isso resultado também numa melhoria significativa do bem-estar económico e social.
Desses valores, todos muito importantes, destaca-se um, acima dos outros e que respeita à igualdade social entre homens e mulheres. A espécie humana é composta em partes iguais por homens e mulheres, mas essa igualdade nunca teve, ao longo da história, verdadeira correspondência com a organização social. Salvo raras e pontuais exceções, houve sempre uma dominância dos homens na definição das regras de organização social. Em todas as religiões monoteístas modernas (cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, etc.) o papel do homem é preponderante e o da mulher é secundário e isto reflete bem a questão. Ainda hoje nos países e sociedades não laicas, a mulher se encontra menorizada quer do ponto de vista formal, quer informal. Em alguns países, designadamente islâmicos e teocráticos, como o Irão e o Afeganistão, a situação é mesmo brutalmente aberrante e repulsiva.
Na Europa e algumas outras regiões politico-geográficas deu-se, designadamente na 2ª metade do século XX, talvez a mais importante revolução da história que foi a dos direitos da mulher. Surpreendentemente neste início do século XXI tudo isto é posto em causa. O velho princípio liberal do século XVIII, “todos nascem iguais perante a lei” é posto em causa por movimentos políticos que preferem privilégios de classe, de género, de nacionalidade, de religião, etc.
O recrudescimento de discursos misóginos e machistas só mostra a degradação política, social e cultural que tem vindo a ter lugar nestes países, entre os quais está naturalmente Portugal. E esse reaparecimento também acontece relativamente a minorias étnicas, culturais, religiosas e até relativamente aos mais pobres e desamparados.
Esse discurso é o da direita radical americana, o trumpismo, da direita nacionalista de Orban e da extrema-direita alemã. Um discurso que não só defende a desigualdade como fator central da organização política e social, como incentiva à exclusão e ao ódio aos grupos minoritários. Este discurso tem feito o seu caminho em diversos países europeus com a França, a Alemanha, a Áustria e também Portugal.
Por cá o Chega ao mesmo tempo que tenta posicionar-se internamente como europeísta e pró-liberal, na verdade, na Europa está associado aos partidos mais extremistas e com discurso de ódio mais radical, no agrupamento Patriotas pela Europa que integra o partido Fidesz de Orban, o Rassemblement National de Le Pen, e os pró-fascistas da Liga de Salvini (Itália) e Vox (Espanha), enquanto a direita radical menos extremista de Meloni (Irmãos de Itália), do Lei e Justiça da Polónia e dos Democratas suecos se integra no agrupamento Conservadores e Reformistas pela Europa.
Quando os diretores e professores das escolas portuguesas alertam para um crescimento do discurso de ódio e machista, tal deve ser levado muito a sério por todos os portugueses. Não só pelos que sempre se preocuparam, mas, também por aqueles que têm participado, incentivado ou até tolerado esse discurso. Que mais não seja porque também têm filhas e irmãs e devem questionar-se se desejam para elas um tratamento misógino e machista.