Edição nº 1947 - 20 de maio de 2026

Joaquim Bispo
O SEGREDO DE DESDÉMONA

Quando Yago chegou a casa, a mulher, Emília, apressou-se a dar-lhe as novidades:
- Já se começa a perceber muito bem qual vai ser o aspeto final do retrato da minha senhora. Ela está deitada num leito, toda nua, e do alto tomba uma chuva de ouro. Ao lado da cama, há uma velha que tenta apanhar algum desse ouro. Ticiano diz que o conjunto representa a figura mitológica de Dánae, engravidada por Júpiter sob a forma de chuva dourada.
- Nua? Excelente! - rejubilou Yago. - Quando volta Desdémona a posar para Mestre Ticiano?
- De hoje a uma semana. A minha senhora não quer dar azo a que o marido desconfie de nada.
«Ah! Mal posso esperar para insinuar indignidades aos ouvidos de Otelo», congeminava Yago. «Se for bastante persuasivo, Desdémona será repudiada e não ficará em posição de ser insensível aos avanços do meu protegido Rodrigo.»
Uma semana depois, em casa do general Otelo, este desvenda a Yago alguns dos aspetos militares que o preocupam:
- O Turco está cada vez mais atrevido. Veneza está a pontos de perder Chipre e até de deixar de ser senhora do Adriático. O Conselho está a ultimar uma aliança com o Papa e com Filipe II de Espanha. Se esta aliança conseguir reunir uma grande armada, partiremos, a confrontar os asquerosos otomanos, nem que tenhamos de lhes dar batalha nas costas da Grécia. - Pensativo, continuou: - Não temo a batalha, mas constrange-me ficar tanto tempo longe da minha adorada.
- Pode ir descansado, general, que sua esposa não se sentirá infeliz, isto é - gaguejava Yago -, mostrará o rosto choroso, mas certamente encontrará distrações, isto é, arranjará maneiras agradáveis de passar o tempo.
- Meu bom Yago - lembrava Otelo -, ela ficará bem, com certeza, mas tu irás comigo. Não te esqueças que és o meu alferes.
- Sim, claro, ficará bem; não duvido. Ficará até muito bem...
- Que queres insinuar? - espevitava-se o general.
- Eu? Nada. Falei por falar. E jamais a minha boca se abriria para difamar a senhora da minha esposa - espicaçava Yago.
- A maneira como falas parece indicar que algo menos honroso se passa. Pela obediência que me deves, sê claro; Dize o que sabes - impacientava-se Otelo.
- Se assim me intima - condescendia Yago, enfim no objetivo - só lhe posso confidenciar que Desdémona se tem encontrado com um velho, a quem se expõe como Deus a deitou ao mundo. Não sei por que o faz, se por lascívia, se por comércio.
- Quê? - esbravejou Otelo, sentindo-se atraiçoado. - Pois ela entrega-se a outrem? Prova o que dizes ou despede-te da vida!
- Não mate o mensageiro, senhor! Pergunte antes à sua amada aonde vai ela todas as sextas-feiras.
- Sim, sim, manda já chamá-la. Quero esclarecer este caso!
- É inútil procurá-la - devolvia Yago -, porque neste momento está ela a ser acariciada pelo olhar de Mestre Ticiano na Scuola Grande de San Rocco. Parece que o Mestre tem predileção por corpos jovens e manifesta mesmo algum entusiasmo quando os seus pincéis acariciam a superfície da pintura, talvez fantasiando que acaricia a própria pele branca e sedosa de sua esposa.
- Pintura? Ticiano? Mas, pelas bombardas de popa, o que é que o velho quer de minha mulher? - surpreendia-se o general.
- Os velhos, às vezes, são os piores - aproveitava Yago. - Ele está a retratar vossa esposa como Dánae, engravidada pela chuva dourada de Júpiter. Isto não parece muito decoroso.
- Oh, com mil raios, que indignidade! Vou expor esse quadro na praça de S. Marcos, para que Veneza abomine essa devassa!
Continua...

20/05/2026
 

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