Joaquim Bispo
O SEGREDO DE DESDÉMONA
(Anteriormente: O alferes Yago, com intenções de aviltar a imagem da esposa de Otelo, para que seja repudiada e aceite os avanços de um seu protegido, insinua que ela efetua atividades indignas, em saídas furtivas à congregação de San Rocco, onde um velho se deleita à vista do seu corpo nu.)
Continuação: De regresso a casa, Desdémona vê-se confrontada com a ira do marido:
- Muito folgo em te ver vestida - ironizou Otelo. - Tanto quanto sei, ainda há pouco oferecias o corpo à lascívia do olhar de quem o deve conhecer melhor do que eu.
Desdémona quedou-se muda e de rosto perplexo. Olhou em volta à procura da aia, que lhe recusou o olhar.
- Explica-me agora - continuou Otelo - por que te expões nua ao olhar de Ticiano!
- Nua? - contrapôs Desdémona. - Nunca Mestre Ticiano viu o meu corpo. O meu rosto aparece num corpo nu, mas esse corpo foi o que preferi, num conjunto de desenhos e gravuras que Mestre Ticiano me deu a escolher, quando contratei a feitura do meu retrato. Só vou a S. Rocco para que ele retrate o meu rosto aplicado a esse corpo que escolhi.
Era a vez de Otelo ficar sem palavras. Mas, logo quis saber:
- Mas, afinal, por que bizarria andas nessas andanças furtivas? Por quê, esse retrato?
- Era para ser um segredo - explicou Desdémona, voltando a passar o olhar por Emília. - Vai fazer um ano que eu e tu nos unimos pela carne. Essa união do viço de uma jovem como eu, com a força de um deus como tu, frutificou. Estou grávida. Sim, grávida! - confirmou sorridente, perante o olhar assombrado do marido. - Quis fazer-te uma surpresa e oferecer-te uma imagem alegórica que evoque, todos os dias, esse primeiro encontro dos nossos corpos, e o que dele resultou. O tema de Dánae recebendo a chuva dourada de Zeus foi ideia de Ticiano.
Otelo ficou um bocado em estupor. Depois, berrou:
- Yago! Estarás sempre na proa do barco dianteiro. Quero que os otomanos fiquem a conhecer as tuas feições. Podes precisar dessas amizades no Inferno!
Caprichosamente, quem não voltou da batalha foi Otelo, trespassado por uma bombarda turca. Desdémona, desgostosa, não resistiu à perda do amado. O seu corpo foi encontrado a boiar no Canal Grande. O quadro, no qual ela punha tanto empenho, acabou por ir parar a Madrid, oferecido por Ticiano a Filipe II, em agradecimento pelo apoio militar a Veneza.