Edição nº 1948 - 27 de maio de 2026

Elsa Ligeiro
A ESCOLA DO MEDO

Pela minha experiência pessoal, os locais onde se aprende deviam ser lugares intimistas e de preservação das boas relações humanas; criando entre os alunos/discípulos e professores/mestres um vínculo afetivo de confiança.
Sim, acredito na afetividade e na importância do lugar de cada um numa sala de aulas como fator relevante à hora de partilhar conhecimento.
Chamem-me lírica, mas acredito que o poder de um bom professor ou professora estabelece-se no domínio da confiança e da ligação primária àquilo que chamamos comunidade.
Uma comunidade alargada, desde logo; e não uma comunidade escolar que se protege como se de um castelo fortificado se tratasse.
Os estabelecimentos de ensino são lugares de aprendizagem da liberdade e não de isolamento.
Também acredito que juntar anos e mais anos escolares dentro de um Agrupamento, para poupar no pessoal auxiliar ou administrativo, tem efeitos nefastos no convívio e na delicadeza do trato, criando tensões difíceis de combater.
Visitar uma Escola, hoje, para mim, é de uma violência atroz.
Como, imagino, visitar um amigo ou um irmão num estabelecimento prisional.
A Escola vive hoje rodeada de vigilância; que, dizem-me, serve para proteger os alunos. Protegê-los de quê ou de quem, pergunto.
Medo da Rua, da Casa, da Vila ou Cidade de que todos, incluindo os que trabalham numa Escola, fazemos parte?
Como se o aluno não partilhasse a violência da rua quando sai da Escola, como se ele não aspirasse à liberdade da rua que lhe promete acontecimentos surpreendentes e desafiadores; como se no adolescente (e hoje vamos falar só de adolescentes) não pulsasse essa atração pelo outro lado do muro. Físico e mais atrativo quando ele se manifesta interdito.
Ao entrar numa Escola Secundária o que sinto é o cheiro do medo: dos funcionários que são obrigados a barrar convenientemente o intruso ou a intrusa da “comunidade escolar”; dos professores e professoras que vivem aflitos com a opinião dos colegas e da direção; e os que ocupam essa direção com medo de não serem competentes num lugar em que o Ministério manda, põe e dispõe, como se de uma academia militar se tratasse.
Estamos no século vinte e um e há quem queira proibir telemóveis: para manter a atenção dos alunos, dizem-me.
Alunos que a Escola fotografa com telemóveis e outras máquinas em “atividades culturais” criadas pelos próprios professores e com supervisão da direção; e onde os alunos são meros figurantes; tudo muito “didático”, “progressista” para os pais verem no facebook e colocarem likes de aprovação à alta performance cultural em que vive a Escola dos seus filhos.
Uma representação pública da Escola para convencer quem? Os pais? As cidadãs e os cidadãos que a sustentam através dos seus impostos?
E quem quer olha com espanto as fotografias: do laboratório ao desporto, da dança às oficinas de escrita ministrada por um autor de grande sucesso de vendas porque aparece na televisão; e que para espanto do senso mais comum, confessa em entrevista que nunca leu Camões, Padre António Vieira, Eça de Queirós, Sophia ou Jorge de Sena, porque os julga aborrecidos.
Amadureci a minha personalidade em Democracia e sou testemunha dos programas de sucessivos governos que colocaram a Educação e a Escola como a grande aposta do seu trabalho (houve até quem a classificasse de paixão).
Mas, refletindo, e fazendo uso da memória, longe vai o tempo em que as Escolas em Castelo Branco tinham um professor de teatro; encenavam peças e textos de Bernardo Soares (Livro do Desassossego) e os apresentavam na Biblioteca Municipal a toda a Comunidade interessada.
Longe vai o tempo em que as professoras bibliotecárias (como a saudosa professora Celina), sabiam separar a literatura de autores como Sophia, Mário de Carvalho, José Saramago, Mia Couto e muitos outros que fixam a nossa identidade social e cultural, de livros indigentes que nos assediam com o selo do sucesso.
Longe vai o tempo em que podia trocar impressões literárias e sociais com alunos e alunas que se transformaram em nomes conhecidos nas artes e nas letras no país e no mundo, como Inês Barata Raposo, autora de livros premiados; Patrícia Semedo, com carreira internacional na música; Maria Caetano Vilalobos, divulgadora de Poesia; ou Filipe Faustino que entre a música e o canto vai conquistando o seu espaço como artista na Holanda.
Hoje, se quiser conhecer os jovens com apetências literárias e artísticas não posso, pois vivem em condomínio escolar fechado.
Não, não me considero uma nostálgica e acredito que os jovens desta e da próxima década vão dar a volta ao texto, com os seus telemóveis e os seus computadores de última geração; e (porque não?) também com a IA, ao serviço daquilo que mais interessa preservar no ser humano: o direito à liberdade.
E vão ensinar aos professores e ao ministério da educação a não ter medo do que não conhecem; a ensinar-lhes que a Escola lhes revela apenas uma parte do que podem aprender; e que a rua, e a sua diversidade comunitária é um lugar de aprendizagem constante, tão importante como ir à Escola das 8 às 17 horas.

27/05/2026
 

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