Edição nº 1950 - 10 de junho de 2026

José Dias Pires
10 DE JUNHO - DIA DO COMPROMISSO: A BOA DOENÇA DOS INCONFORMADOS

Infelizmente, entre nós e no mundo, há cada vez menos pessoas a padecer da doença do compromisso: algo ao qual fogem aqueles que pressentem que esse conceito pode transformar-se em ação definitiva (com e pelos outros) e constituir-se como uma (boa) doença incurável.
Têm, na cegueira dos seus interesses individuais, o desamor pela vida - todas as vidas, e semeiam a devastação, a destruição e o ódio só porque temem o que é diferente e não está, por si, formatado. O pior é que pouco se importam (na verdade nem se importam) de ser assim: Inverno. Inverno no corpo e na alma que é um inferno na vida dos que vivem formatados nos seus convencimentos, numa agitação, aparentemente exuberante, que deixa a pairar no ar uma das melhores descrições para a infelicidade: a apneia da cor ou a doença do polvo que é nada mais que a cegueira às cores que antecede a clarividência, e se fica apenas pelo espaço em que a visão se reduz a um cinzento quase branco ou quase preto.
Para os inconformados a infelicidade nunca está ali, pronta a fazer caminho, apesar das contradições e dos avanços e recuos a que os obrigam os seus compromissos, cujo mais íntimo de todos é aprender a ver, para poder voar e, no momento próprio, preservar a eternidade que nada mais é que a memória comprometida e promotora da alegria de estarmos vivos, unidos, diferentes e únicos.
Os que vivem apenas formatados nos seus convencimentos, estão impossibilitados de sofrer da boa doença dos inconformados, pois, para além do óbvio ciclo da vida, cedo começam a morrer por dentro, incapazes de contestar, com fundamento, os que ficam, como sempre, do lado de fora da amargura onde passeiam as pessoas coloridas.
As criaturas cinzentas, que na sua aparente riqueza nada possuem, julgam-se os donos da rua? Julgam.
Fazemos muito mal em deixá-los viver esse engano, pois não se darão conta que somos nós (também tantas vezes sem nos darmos conta disso) os seus donos e criadores. Fazemos muito mal em deixá-los devorar as nossas insígnias com os olhos e reter os novelos de fumo dos fogos-de-artifício entre os dedos indicadores e polegares, desfrutando desse poder efémero, provisório e fugaz. Fazemos muito mal em deixá-los saciar, nesse pequeno momento triunfal, a fome das suas almas que não têm espírito, apenas calamidade.
Se o quisermos (mas é importante querermos), nunca conseguirão entrar nas nossas vidas. Porque são Inaptos e desconhecedores, levariam mais do que um ano para compreender as nossas fechaduras e mais do que um mês para abrir as nossas portas. Engendrariam dezenas de estratagemas, centenas de projetos, milhares de tentativas, antes de o conseguirem concretizar (se o quisermos).
Na verdade, existe uma força maior. Maior do que eles, maior do que nós: a força do tempo que nos ajuda a atingir os nossos propósitos, a não recuar perante as dúvidas, se as temos (e temos), quanto à natureza das nossas festividades e ao tipo de apagamentos que elas provocam.
Com motivações e particularidades diferentes, assim celebramos o Dia 10 de Junho: uns a querer devolver as insídias, transformando o dia da celebração no dia da ira; outros atrás de uma joia chamada memória perdida — aguardamos o momento de iniciar a saga da trovoada surda que antecede o rasgar das nuvens e o vazar do azul, a que os antigos sábios chamavam infinito. Nem epopeia nem tragédia, apenas um último esforço sem flauta, timbale ou trompa através do compromisso transformado em ação definitiva (com e pelos outros) que é a boa doença dos inconformados (se o quisermos).

10/06/2026
 

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