Edição nº 1951 - 17 de junho de 2026

Joaquim Bispo
O MURO GLOBAL

A reunião de Agenda da estação de televisão chegava ao fim. Só faltava um fait divers. Alguém adiantou que o emergente e furtivo graffiter ShameU andaria a pintar um novo mural.
- Eu faço isso! - decidiu a subdiretora Edite Silva, que não desdenhava piscares de olho à media glamour, sacolejando a cabeça para afastar das pestanas uns fiapos de cabelo.
A assistente fez o contacto e combinou os pormenores: seria à tardinha, num muro de um acesso rodoviário na Pontinha.
- Mais cedo. Diz-lhe para estar lá às 4! - determinou Edite.
À hora combinada, com um operador de reportagem a tiracolo, Edite chegou junto ao graffiter, empoleirado numa plataforma, rodeado de latas de spray e de máscara protetora na cara. O trabalho estava no início. A toda a altura, sobressaía uma Estátua da Liberdade, vista de costas, sobre pichagens antigas.
Apresentados, Edite, expedita, delineou o que pretendia:
- Começamos pelo seu percurso. Depois, a obra. Vamos lá!
- Hoje viemos conhecer um talentoso artista de rua. ShameU, fale-nos um pouco de si! Há quanto tempo pinta e porquê?
- No secundário fazia parte de uma crew que assinava todos os muros vazios que encontrava. E, de vez em quando, fazíamos umas figuras pop-art e letras muito perspetivadas. O que me trouxe para o graffiti de intervenção foi a exigência ética de denunciar os crimes da América. Tinha acontecido o assalto sem justificação e a destruição do Iraque, e ninguém parecia importar-se; muitos até apoiavam a carnificina. Morreram centenas de milhares de iraquianos. Inocentes. Exceto o exemplo corajoso de Carlos Fino, a voz do dono passava uma mensagem mansa de justiça e normalidade. Daquele ato bárbaro, ao nível de um Hitler... Uma injustiça brutal, o mal puro à solta.
- Foi então que começou a pintar os muros da cidade?
- No princípio, a imagem era, para mim, uma perda de tempo e de tinta. A mensagem era tudo. Uma frase, a negro, a denunciar os massacres infligidos pela América aos povos era o necessário e suficiente. “A matança de Bush já atinge os duzentos mil civis”, por exemplo. Quase sempre acrescentava o link da Internet com essa notícia. Depois percebi a força das imagens, sobretudo ao ver as pinturas do Banksy. O que não impedia a frase forte, rápida de aplicar, a denunciar as canalhices da época; por exemplo: “Obama matou hoje mais 17 crianças no Paquistão”.
- Parece então que você, com tanto terrorismo por esse mundo fora, escolhe os Estados Unidos como “o mau da fita”!
- A minha crítica é mais um queixume. A América, como superpotência ultradesenvolvida, tem uma responsabilidade especial. Ela é glorificada pelas massas, apregoa-se como um farol de liberdade, mas não passa de uma carcereira implacável. Existem hoje mais de 800 bases militares norte-americanas fora dos Estados Unidos, espalhadas por todo o planeta. E ai do país que eleja um governo que ela não aprove. Pode ser o mais querido pelos seus povos… o mais certo é ser boicotado, sabotado, invadido. Veja os casos de Cuba, do Iraque, da Líbia!
- Eram países comandados por ditadores sanguinários, certo? Você defende as ditaduras? - reagiu Edite, provocatória.
- Aqueles a quem a senhora chama ditadores foram, muitas vezes, os líderes que retiraram os respetivos países de baixo da pata colonialista. Por isso, o Ocidente não lhes perdoa. Promoveram o desenvolvimento, retiraram milhões da pobreza. Foram heróis para os seus povos - ShameU gesticulava, acentuando as palavras com movimentos largos. - A América substitui os “ditadores” por guerras civis, que matam centenas de milhares ou milhões de inocentes. Os povos não precisam de ajudas genocidas. Quando as condições ficam reunidas, libertam-se dos respetivos opressores, como Portugal se libertou.
Continua...

17/06/2026
 

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