Edição nº 1951 - 17 de junho de 2026

Lopes Marcelo
AS REDES SOCIAIS

No pulsar do tempo em que vivemos pouco se cultiva a solidão reflexiva e criativa, ancorada na moldura fértil da memória. Antes se praticam jogos de espelhos compostos de imagens instantâneas, desenquadradas se não mesmo manipuladas. Cascatas de emoções e de opiniões soltas à espuma dos dias, quais bandeiras enfunadas nas redes sociais. Para muitos, não aparecer ou não ser falado é como não existir. As redes sociais ruminam o presente e matam a memória. É a vida quotidiana na moldura pedante da narrativa das circunstâncias. Claro, as mais coloridas, aprazíveis e até delicodoces, a pintarem quadros de vida atraentes, que impõem figuras, padrões, influências e comportamentos a que aderem por imitação e não por ponderação reflectida. Tal comunicação dita social, apressada; tornando intensa e, até asfixiante, a espuma dos dias, amplia a camada superficial das emoções, e dos comportamentos em processos de imitação, de seguidismo viciante. Tal movimento de auto-satisfação e conforto imediato, asfixia o pensamento autónomo em ansiosa expectativa de dar nas vistas e de se sujeitar ao outro, ao grupo ou tribo, comprometendo-se o encontro de cada pessoa consigo própria.
A emoção na ponta dos dedos aparenta liberdade, imensa informação que redopia mas compromete a análise e a selecção por análise e apreciação crítica que transforme a informação em conhecimento. Conhecimento que fique com as pessoas, as enriqueça, as transforme e lhes proporcione a sua visão do mundo, a escolha consciente do encontro com os outros e, sobretudo, consigo próprias.
A praia das redes sociais pode bronzear a fachada, o bem parecer, a distração no borbulhar das pequenas ondas, mas pode comprometer a verdadeira aventura no mar da vida, por vezes encapelado. difícil ou doloroso, mas que representa o exercitar da personalidade e do ser autónomo, filiado em princípios e valores.
As plataformas que suportam as redes sociais também funcionam como instrumento e meio de organização de eventos, de partilha de conhecimento e documentação dentro de grupos específicos, mais ou menos fechados, com projectos e objectivos comuns. Não defendo que nos fechemos às novas tecnologias, mas que sejam usadas em função dos nossos critérios e objectivos, de modo ponderado, responsável e crítico.
As redes sociais constituem uma fragilidade excitante dos nossos dias. Para os sectores mais vulneráveis, sobretudo para os mais novos e os mais velhos, podem comprometer a reflexão, bem como a decisão responsável. De facto, ao serviço das modas e de interesses obscuros, manipuladas por agentes criminosos que se escondem nas redes sociais, a sua mão activa constitui uma praga social cada vez mais actual. O que está a fazer a nossa sociedade para informar, formar e regulamentar esta realidade cheia de perigos?

17/06/2026
 

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