Edição nº 1958 - 5 de agosto de 2026

NOS 85 ANOS DA SUA MORTE
António Faria de Vasconcelos

António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo ou simplesmente Faria de Vasconcelos foi um dos mais prestigiados pedagogistas associados ao Movimento Escola Nova – um ilustre escolanovista. Pertenceu a uma família de juízes, frequentou a escola em Castelo Branco e em Braga (Colégio do Espírito Santo) dos missionários franceses, tendo em seguido feito exame e matriculado em Direito na Universidade de Coimbra, onde se bacharelou. O seu primeiro trabalho académico foi sobre O materialismo histórico e a crise religiosa do século XVI. A sua postura é de um cientista social, não a do político, ou seja, um estudioso do social empenhado na transformação da sociedade/civilização. O âmbito do saber que vai pouco a pouco absorver será o da educação/pedagogia e não o de jurista e da intervenção política. Atraído pelo vetor pedagógico da vida social partiu para a Bélgica (1902), onde se matriculou na Universidade Nova de Bruxelas, onde frequentou a Escola Livre Internacional de Ensino Superior, obtendo grau de Doutor em Ciências Sociais (1904), com a classificação la plus grande distinction, com a tese Esquisse d’une théorie de la sensibilitésociale’ Foi imediatamente contratado para professor da Universidade, regendo a cadeira Psicologia e Pedagogia, no Instituto de Altos Estudos (1904-1914).
Aquando da implantação da República, Faria de Vasconcelos é um pedagogo envolvido no Movimento da Escola Nova e dos seus ideais, que tinha em Genève - Instituto Jean-Jacques Rousseau e na Maison dês Petits, anexa ao Instituto o seu núcleo mais ativo e qualificado. Pontificam aí, nessa época, as figuras notáveis E. Claparède, P. Bovet, A. Ferrière (diretor Bureau International dês Écoles Nouvelles), Ernest Schneider, J. Piaget, Helena Antipoff. O pedagogo Albicastrense fundou em 1912, perto de Bruxelas, em Bierges-Lez-Wawre, uma Escola Nova que aspirava a realizar o modelo proposto pelo Bureau International, com os 30 princípios definidos por Ferrière. Desse conjunto aplicou 28,5 princípios na Escola de Bierges (não lhe foi permitido satisfazer a coeducação nem casas unifamiliares separadas para grupos de 10 a 15 alunos), que foi a segunda Escola Nova mais perfeita do Mundo, pois só a de Odenwald realizou os 30 pontos. A experiência veio a ser publicada em livro editado Delachaux et Niestlé, com título Une École Nouvelle en Belgique. Nessa obra refere que: a escola devia estar situada no campo; fazer o ensino a partir da experiência enriquecido pelo trabalho manual; funcionar em regime de autonomia dos escolares. A I Guerra Mundial veio interromper essa experiência e Vasconcelos refugiou-se em Genève, integrando-se no Instituto Jean-Jacques Rousseau (ministrou 1914-15 curso de formação).
Por indicação de Ferrière e Claparède às autoridades cubanas, foi para Cuba (1915-17), onde realizou uma obra notável como inspetor responsável das instituições de beneficência para crianças/jovens e daí segue para a Bolívia (1917-20) dedicando-se à formação de educadoras e professores, sendo diretor da Escola Formação de Sucre (famosa na América Latina, em especial no Brasil), publicando a sua Didática de la Escuela Nueva e ‘Syllabus» del Curso de Dirección y Organización de las Escuelas’ (1919). Na Bolívia, Faria de Vasconcelos envolveu-se em algumas intervenções políticas, em defesa da causa boliviana, focalizando principalmente a perda do acesso da Bolívia ao mar, consequência da apropriação pelo Chile de todo o litoral, no âmbito da chamada Guerra do Pacífico, em 1879.
Regressa em dezembro 1920 a Portugal onde exerceu o cargo de professor de Pedagogia na Escola Normal Superior, é cofundador do Grupo Seara Nova, leciona na Universidade Popular Portuguesa e, em 1922, passa a docente Faculdade de Letras de Lisboa, na área da Pedagogia/Psicologia e do curso de Psicologia Geral, publicando Lições de Psicologia Geral (1924). Colabora na Proposta de Bases para a Solução dos Problemas da Educação Nacional apresentada pelo ministro João Camoesas ao Congresso da República (1923). Em 1926 arranca com Instituto de Orientação Profissional, sendo seu diretor até 1939, com um trabalho inovador, segundo os especialistas internacionais. Criou, entre 1929-31, o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica (educação especial) que por falta verbas encerrou. Posteriormente embrenha-se na organização Instituto Dr. Navarro de Paiva, destinado a menores do sexo masculino anormais delinquentes dos nove aos 16 anos “[…] suscetíveis de educação e capazes de fornecer um rendimento social pela prática dum ofício adequado às suas capacidades”. Colabora em muitas revistas pedagógicas em especial na Revista ().
A sua vida e publicações impressas e artigos em revistas (Seara Nova, Educação Popular, Revista Lusitânia, jornal A Batalha, porta-voz da CGT), exprimem fielmente as ideias inovadoras, que quis divulgar e implementar no País longe dos meandros políticos da época. Os seus contributos à História da Educação merece ser entendidos no âmbito da Pedagogia Contemporânea. Faria de Vasconcelos é pois uma referência histórica na Educação e Pedagogia que nos deve orgulhecer como Albicastrenses.
Ernesto Candeias Martins

05/08/2026
 

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