João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
AGOSTO, mês das férias. E férias deveriam significar repouso, mais tempo a usufruir do convívio da família e amigos e a procura de novos ares, se possível mais frescos. Para quem pode, dirão os nossos leitores. Porque aquele mês inteiro que, nos anos 80, se gozava em casa alugada na praia, foi-se encolhendo, encolhendo, para restar apenas uma semana. E mesmo assim não será para todos, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Eurostat, que apontam para 33 por cento dos portugueses a não terem recursos suficientes para gozar fora de casa o descanso anual a que têm direito. Mesmo assim, muito melhor que a Roménia (66 por cento), mas muito longe dos países nórdicos (entre 12 e 15 por cento).
Para as novas gerações, as férias são um dado adquirido, sempre terão existido por um direito natural. Mas o direito de quem trabalha a ter férias foi uma conquista do século XX, com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) a declarar esse direito dos trabalhadores em 1936. Em Portugal, foi vertida em lei no ano seguinte, mas apenas com uma pequeníssima minoria a ter direito a oito dias de descanso, não pago. No pós guerra, em grande parte da Europa começa a massificar-se o acesso às férias, ainda que a beneficiar em especial uma nova burguesia. Muito bom o retrato que faz Jacques Tati no seu filme de 1953, As Férias do sr. Hulot (já agora, que pode ser visto na plataforma Filmin). Em Portugal, foi apenas após a Revolução de 25 de Abril de 1974 que o direito a férias pagas se generalizou a todos os trabalhadores sem exceção (incluindo o setor agrícola e o trabalho doméstico). Mas já nos anos sessenta, chegado o agosto, víamos as nossas aldeias ganharem animação e novas cores com as vacanças dos emigrantes que todos os anos voltavam em boa voiture, alugada ou própria, a botarem figura onde férias, só em sonho.
Hoje não basta ter férias e ficar na sua comunidade a descansar. Nem que algumas vezes se tenha de recorrer ao crédito pessoal, a pagar em suaves prestações ao longo do ano, é preciso sair e procurar novos ares onde se sinta a frescura da brisa marítima. As férias dos portugueses, como a dos muitos milhares de estrangeiros que aqui buscam o sol, a praia, a gastronomia e a segurança, alimentam uma indústria do lazer, um setor que é, como todos sabemos, o motor da nossa economia. Ainda que de ano para ano as férias no Algarve se tornem uma miragem, porque a inflação e a especulação nos preços do turismo, tornam o destino num luxo quase proibitivo para a classe média. A alternativa são as praias espanholas, de igual qualidade e a preços bem mais acessíveis. De Espanha, podem não vir nem bons ventos nem bons casamentos, mas vêm férias de verão que ainda cabem no nosso bolso.