Lopes Marcelo
AGOSTO
Já passámos a primeira metade do nosso querido mês de Agosto. Querido e desejado com elevada expectativa para o período de férias, de maior disponibilidade para o reencontro sem pressas e o convívio mais demorado nos desejados cenários, com destaque para as nossas terras de origem. Por aqui encontramos espaço e tempo para a celebração dos gestos afectuosos e a revisitação das memórias de onde somos que tanto nos moldaram no que somos, em família e identidade que nos conforta e anima. De facto, exceptuando alguns fins de semana de excessiva azáfama e ruído de festas e romarias; tantas vezes pouco mais do que feiras cheias de diversões ruidosas, concentrando meia dúzia dos artistas do show dito nacional – a dimensão do contacto com a natureza, da gastronomia e da cultura popular local, valem bem a pena.
Na restante parte do ano vive-se a correr. Contudo, vivemos muito ou pouco, quando vivemos depressa? Não será a pressa um ansioso desgaste de energias sem retorno de tempo, e de afectos? Foge-se de algo e para onde? Muitas vezes para esquecer, descartar rapidamente sem a coragem reflectida de se viver de forma inteira na pauta plural e multicolor da vida, abertos ao compasso da realidade, mas, também, com vontade e objectivos próprios, disponíveis para o sonho.
Está generalizada a ideia de que todos temos de competir a todo o custo pelo sucesso em moldes pré formatados movidos pelo insidioso algoritmo do negócio e do consumo; mais ou menos subentendido e com motivação insidiosamente escondida. Apela-se, pretende-se ser feliz todos os dias, sem margem para as contrariedades nem para qualquer sofrimento. Exige-se tudo e para já, sobretudo nas gerações mais novas. Contudo, tal não é possível, nem o dito e exigido “sucesso” é, tantas vezes, sinónimo de realização pessoal ou de felicidade. O que passa e quem passa por nós depressa não recebe nem partilha o perfume e a ternura dos afectos. Fica efémero, permanece neutro, árido e bloqueado. Pretendem, alguns, dominar o tempo pelo ter na vertigem da velocidade e, apenas ganham a destemperança, a ilusória sensação de estar mais perto de alguma meta exterior a que se submeteram. Resta, quase sempre, apenas ânsia, sem tempo nem sabedoria para saborear a festa de partir e de chegar, de estar, de se revelar e de partilhar. O tempo, naturalmente neutro, ri-se da vertigem da pressa. O tempo, grande escultor, actua com a nossa cumplicidade e usa a nossa própria mão e as nossas atitudes, revelando-nos para o melhor e para o pior.
O tempo e espaço de férias representa uma boa oportunidade de alguma demora para a leitura. De facto, um livro é sempre um bom amigo. Um amigo especial que está sempre disponível. Não é exigente, não protesta, aguarda silenciosamente pelo nosso desejo e fica à espera do nosso gesto e iniciativa de encontro. Não perturba a nossa intimidade, antes a valoriza e enriquece, respeitando a opção ao ritmo e conveniência das nossas escolhas. Alarga horizontes, abre novas janelas, disponibiliza informação e propõe viagens na vibração da pauta das emoções e dos sonhos. É sempre um bom amigo que nos convida a entrar na sua casa de palavras habitada pela luz, imaginação e testemunho do autor.
Os livros são casas especiais de palavras cheias de atracções e de experiências à espera de visita e de partilha. Uma casa de inúmeras assoalhadas à medida da imaginação e do sonho, proporcionando o convívio fecundo com as palavras. Depois do encontro com o livro fica a maresia da emoção no olhar atento do leitor, celebrando o fino linho de palavras tecido pelo autor, pacientemente, no tear da vida. E não é a melhor dimensão para as férias, saborear mais demoradamente novos horizontes e renovadas mensagens que estão mesmo ao nosso lado e sempre disponíveis?