Edição nº 1959 - 19 de agosto de 2026

Maria de Lurdes Gouveia Barata
O ENCANTO DO MAR

Tinha comprado o postal numa livraria, não lembro bem qual, mas penso que era a que estava em frente da casa dos meus pais, a do senhor Vilela, sempre sorridente e solícito, de extrema delicadeza, o vizinho que eu apreciava pela simpatia desde a escola primária e, no tempo do postal, já era uma adolescente de treze ou catorze anos.
Era um postal que eu tinha adquirido só para ver o mar, quando me apetecesse. Conservei-o toda a vida, deve estar por aí, tão bem guardado que anda perdido, pois já tentei descobrir, ingloriamente, onde está. O postal tinha um último plano dominante com o firmamento e um mar azul profundo, com ondas franjadas de espuma branca ao longo dum extenso areal. No primeiro plano havia dunas com verdes, alguns debruçados para a areia e o mar, provavelmente estremecendo com o vento. Em segundo plano havia uma figura feminina de costas, de lenço branco na cabeça, sentada na areia, olhando o mar. Era uma paisagem de solidão para meditar na imensidade da Natureza. Solidão sim, porque era eu que me investia naquela mulher sozinha com o mar. E tornava-se uma evasão. O postal andava sempre na minha pasta a caminho do liceu. Eu era uma boa aluna, atenta e interessada. Mas acontecia que havia professores que não motivavam tanto essa atenção e, quando estava farta, eu saía suavemente da aula: tirava da pasta o meu postal de mar, colocava-o sobre a carteira, perto dum caderno ou livro onde pudesse rapidamente escondê-lo na hipótese da emergência de ser apanhada na saída não permitida. E ficava ali, só a olhar, imóvel no sabor de Natureza e ar livre. Era só eu e o mar, porque já disse que era eu aquela figura feminina. Até chegava a ouvir o fragor do batimento das ondas. Lembro agora que a sensação era a do primeiro poema de Dia do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen: «As ondas quebraram uma a uma / Eu estava só com a areia e com a espuma / Do mar que cantava só p’ra mim.» Tecia histórias de navegação com cantos de sereias…a campainha tocava para a saída e eu conferia como aquela aula, que se tornara enfadonha, tinha passado mais depressa.
Tive sempre dentro de mim (e nasci no interior!) este fascínio pelo mar, não só pelo que tem de belo e grandioso, mas também de temível pelas imagens de tempestades que impõem respeito. Aliás, toda a Natureza impõe respeito. Esse fascínio levou um dia Torga a registar no Diário, estando diante do mar: «Que belo túmulo para um poeta!». António Botto, no poema «Passei o dia ouvindo o que o mar dizia» (Canções) termina com estes dois versos: «E os poetas a cantar / São ecos da voz do mar!».
De mais a mais, os portugueses trazem o mar dentro da memória. Portugal é país à beira-mar plantado e o chamamento para partir foi sempre forte e nessa partida construiu-se uma história trágico-marítima. O mar tornou-se um destino português, com trabalho e perigo e intercâmbio cultural (haveria outras considerações, mas não vêm agora ao caso). Afonso Lopes Vieira, no poema «Saudades Trágico-Marítimas» (Ilhas de Bruma) apresenta um refrão: «Chora no ritmo do meu sangue, o Mar!», que carreia uma memória colectiva, mas outrossim pessoal, a de amor ao mar.
Comecei esta crónica a pensar no mar, porque é Verão e tempo de férias e há o apelo do litoral. O abraço quente desta estação chama-nos para junto da água, agora mais do que nunca, porque o clima entrou em desvario provocado pelos seres humanos e já vamos na sexta vaga de calor em Portugal e as praias fluviais e marítimas acenam como refrigério. Com cuidado, com avisos, porque os dias inteiros a usufruir do sol tornaram-se perigosos. Mas os horizontes de mar abrem-se como um sonho nos dias longos que se doiram, nos dias longos de descanso, que se tornam preguiçosos, prometendo renovação de energias a viver devagar, sem olhar o relógio. O tempo perde importância. É bom caminhar de pés afundados na areia macia com a voz do mar e a frescura da onda que nos acaricia os pés, sobretudo se a praia estiver afastada de gente, concedendo deste modo um sentir de liberdade. Disse Charles Baudelaire: «Homem livre, tu sempre gostarás do mar»; disse Fernando Pessoa: «O mar é a religião da Natureza». Acrescento ainda uma citação de Miguel Torga (Diário VIII, Miramar, 1 de Setembro de 1958): «Transita-se bem da montanha para o mar. Não há quebras na respiração. Enche-se a alma da mesma amplitude e da mesma pureza. Todas as coisas grandes são, na verdade, irmãs.»
Quero deixar uma nota: ainda há quem diga que Miguel Torga é homem que ama a montanha e não gosta do mar. É falso. Miguel Torga é um amante da montanha, mas também digo que ama o mar. A propósito, registo um poema que o prova (Cântico do Homem):

QUANDO CHEGAR A HORA

Quando chegar a hora decisiva,
Procurem-me nas dunas, dividido
Entre o mar e a terra.
Marujo e cavador, tanto me quer a espuma
Como a folhagem.

Mas se a grande aventura que se espera
Tiver o mesmo fruto sal e seiva,
Venham roubar-me às ondas que namoro
E à sombra das montanhas que nos cobre
Com ternuras de amante.
Levem-me nu à festa do combate
Que vai unir os mares e os continentes.
Marujo e cavador, terei o mar inteiro
Das esperanças humanas,
E a terra universal
Da redonda e alada perfeição.

Esta crónica é marcadamente pessoal. Espero que os que me lêem gostem um pouco de lê-la, decerto não tanto como eu gostei de escrevê-la, porque amo o mar.

19/08/2026
 

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