Edição nº 1960 - 26 de agosto de 2026

Joaquim Bispo
PENÉLOPE

(Anteriormente: Passaram já sete anos, desde que Troia caiu, mas Ulisses não regressa. Todos acham que Penélope deve escolher novo marido, entre os inúmeros pretendentes, mas não ela.)
Continuação: Penélope declara que escolherá um pretendente depois de completar a mortalha fúnebre para o pai de Ulisses, que está entrado em anos. Pode ser que entretanto Ulisses chegue. Mas os meses passam e Ulisses mantém-se ausente. Penélope desfaz de noite a urdidura tecida durante o dia.
Penélope já não sabe que mais temer: a morte funesta do esposo em batalhas remotas ou a sedução de feiticeiras, ninfas e deusas invejosas. Em quem andará Ulisses a cravar a espada: em corpos de inimigos cruéis e desprezíveis ou em carnes mais delicadas e propícias? As costas dos mares irrequietos estão cheias de tentações e perigos.
Tecer, urdir uma teia, lidar com miríades de fios, juntar uns, separar outros, ajuda Penélope a meditar, a ter uma visão alargada da complexidade dos desafios que enfrenta. Apura-lhe a intuição, desvenda-lhe outros padrões, outras tecituras. Avalia possibilidades onde antes só encontrava entraves.
Conferencia com o filho e com Mentor, o fiel amigo que Ulisses deixou a tomar conta dos seus domínios. Envia-os a pedir ajuda aos bravos heróis e companheiros de Ulisses em Troia, que há muito regressaram, mas também eles só vislumbram a solução matrimonial. A lógica da espada prevalece.
Seu pai e seus irmãos pressionam Penélope para que aceite Eurímaco, que mais ricas prendas tem oferecido. Também a ela este parece o menos mau dos que a cortejam. Nunca Antínoo, o rude e agressivo líder da turba arrogante dos pretendentes. Disfarçadamente, vai avaliando os modos corteses de Eurímaco, o seu porte nobre, a elegância do seu gládio, bem mais admirável que as desprezíveis adagas ou as traiçoeiras cimitarras da maioria. Mas custa-lhe a imposição da escolha. Não é opção para uma rainha. Sobretudo sem a certeza da morte de Ulisses.
Se os pretendentes fossem dois ou três, facilmente poderia criar algumas intrigas, acicatar ciúmes e livrar-se de todos, mas com cento e oito… Terrível dilema. É como se Hera, protetora das mulheres casadas, sentindo curiosidade pela extrema fidelidade de Penélope, bloqueasse outras ajudas dos deuses, propondo-se ver como conseguirá uma mortal desenvencilhar-se do aperto em que se encontra. Talvez a mortal encontre soluções para problemas tão complexos como os que por vezes ela própria enfrenta - as constantes traições de Zeus.
A situação é muito difícil, é um problema sem solução visível. Só os aedos vislumbraram uma. Homero cantará um regresso tumultuoso e arrasador de Ulisses. Com o auxílio de Atena, chegará a Ítaca disfarçado de mendigo, entrará no seu palácio ocupado, com a ajuda do filho e de um porqueiro, revelar-se-á a alguns servos indefetíveis. Arquitetará então um plano terrível que executará implacavelmente até à morte de todos os pretendentes. Sem perdoar um. E até de algumas servas que a eles se entregaram, transformando em bordel a casa da sua senhora.
Que Ulisses implacável é este? Como desapareceu a sua lendária sensatez? Será mesmo Ulisses que regressa? Ou um aventureiro que com ele privou e de quem foi confidente? Ninguém o reconhece. Só uma serva se deixa convencer ao lhe ser mostrada uma antiga cicatriz na perna.
Outros aedos cantarão versões libidinosas de amores adúlteros de Penélope. Uma variante chegará ao extremo de pretender ter ela ido cedendo sucessivamente aos mais de cem pretendentes. Muito adulterada deverá estar a memória para admitir que tal seria concebível para uma princesa de Esparta, cidade por excelência das mulheres virtuosas.
Continua...

26/08/2026
 

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