João Belém
ENCONTROS…….
“A hora do encontro é também despedida. A plataforma desta estação é a vida”
Milton Nascimento e Fernando Brant
Nem todas as despedidas têm lágrimas, abraços demorados ou palavras cuidadosamente escolhidas. Algumas acontecem no meio de uma conversa banal, junto a um carro, à saída de um café ou no final de uma noite entre amigos. Dizemos “falamos depois”, “temos de combinar qualquer coisa” ou simplesmente “até amanhã”. Seguimos com a vida convencidos de que haverá outra oportunidade. Só mais tarde percebemos que aquela foi a última vez.
A chamada Last Meeting Theory, popularizada no TikTok, parte de uma ideia tão simples quanto inquietante: duas pessoas podem encontrar-se pela última vez sem saberem que aquele momento encerra a sua história. Depois, mesmo vivendo na mesma cidade, frequentando lugares semelhantes ou partilhando amigos, deixam de se cruzar.
Não é preciso acreditar que o universo decide quando uma relação cumpriu o seu propósito. A vida muda de direção, os hábitos alteram-se e aquilo que antes aproximava duas pessoas desaparece. Ainda assim, custa aceitar que um vínculo importante possa terminar sem aviso, sem explicação e sem uma despedida reconhecível.
Mas depois a vida acontece.
Chegam os compromissos, o trabalho, a família, o cansaço, as preocupações, os dias que passam depressa demais. E aquele “temos de combinar” fica suspenso no tempo, perdido entre tantas outras coisas que nunca chegámos a fazer.
Talvez uma das maiores mentiras da vida adulta não seja propriamente a frase. É a ilusão de que teremos sempre tempo para cumprir aquilo que sentimos no momento.
E um dia percebemos que o tempo não estava à nossa espera.
Talvez por isso devêssemos substituir o “temos de combinar qualquer coisa” por algo muito mais simples e verdadeiro: “Quando podes?”
Porque há uma diferença enorme entre ter vontade de estar com alguém e efetivamente estar.
A vida adulta ensina-nos, muitas vezes, tarde demais, que as relações não desaparecem necessariamente por causa de conflitos. Algumas desaparecem simplesmente por falta de tempo partilhado. Pela sucessão de adiamentos. Pelo silêncio que se instala entre duas pessoas que continuam a gostar uma da outra.
E talvez seja essa uma das maiores tragédias silenciosas da vida: perder pessoas sem nunca ter decidido perdê-las.
Por isso, quando encontrarmos alguém de quem gostamos e dissermos “temos de combinar qualquer coisa”, talvez valha a pena parar um instante.
E combinar mesmo.
Porque, no fundo, não temos falta de tempo. Temos falta de consciência de que o tempo é precisamente aquilo que estamos a gastar.
E algumas pessoas merecem que não deixemos o encontro para depois.