Elsa Ligeiro
QUEM AINDA SE LEMBRA DA PANDEMIA COVID 19?
Há livros que abordam de frente a nossa história comum. Inteligentes e úteis para uma reflexão sobre o nosso destino coletivo.
Um dos livros que nasceu da experiência pessoal e social da pandemia, vivida há um par de anos e que hoje já nos parece esquecida, reúne o pensamento de dois portugueses extraordinários: um professor de filosofia e escritor; e o outro, um fotógrafo de qualidade reconhecida, que vai produzindo ensaios fotográficos sobre a epopeia humana e os seus conflitos.
Falamos de Rui Nunes e Paulo Nozolino que aceitaram o desafio da jornalista Alexandra Carita para comentarem a sua experiência da pandemia em Portugal, e que a Relógio d’Água editou em livro, no ano de 2021, com o título “Dizer o Mundo - Conversas com Rui Nunes e Paulo Nozolino”.
Os dois falam da escrita e da fotografia num mundo antes e após a pandemia, essa experiência que devia estar ainda presente no nosso quotidiano, em discussões e partilhas comunitárias; mas que a vertigem e o ruído permanente que nos rodeiam; afastou-nos rapidamente da saudável condição humana de pensar e partilhar experiências.
Experiências tão trágicas como é a morte e a doença que nos coube a todos viver (em maior ou menor escala) no início dos anos vinte do nosso século vinte e um.
Será que estamos a perder as referências de um pensamento pessoal e de espaços comunitários para a troca de experiências e conhecimento?
Estaremos a desaproveitar a experiência singular de cada um(a) sobre um acontecimento à escala mundial como foi a pandemia?
Não todos, creio, apenas a maioria.
Rui Nunes responde de forma filosófica perante a pergunta de Alexandra Carita: “Vai haver uma época pós-pandemia?” Vai, responde Rui Nunes, “as pandemias introduzem mudanças. Só que há um momento em que as mudanças que introduzem se vão tornando parte da normalidade”.
E dá o seu testemunho pessoal de como viveu a pandemia: “Durante o confinamento, senti-me razoavelmente bem, mas isso tem a ver com a minha misantropia. Ouvia os pássaros que já não costumava ouvir, respirava de outra maneira, até perdizes havia em Linda-a-Velha”.
O mundo era outro, daí Rui Nunes sentir uma perda no regresso à normalidade: “senti que ia perder alguma coisa. Ia perder o silêncio da minha casa, ia perder as perdizes que estavam lá atrás, naquele jardim, ia perder a senhora que andava a passear o cão às sete da manhã, quando eu ia dar a minha volta…”
A perda do silêncio e da passagem lenta do tempo é uma desvantagem para quem é misantropo; mas qual será a perda para uma viajante como Paulo Nozolino?
“Para mim, que estou ligado à viagem, a pandemia tem-me impedido de viajar. E eu necessito de viajar para trabalhar. Eu preciso do real, preciso de ver as coisas. Senti imenso a falta disso e ainda estou a sentir… Para mim a pós-pandemia vai acontecer quando tivermos todos o tal certificado, quando não nos chatearem quando entramos num avião, quando não nos obrigarem a fazer uma quarentena, quando formos livres. Eu tenho é um grande medo de que não sejamos livres como fomos antigamente”, ao que Rui Nunes comenta: “Se calhar não vamos ser”, e Paulo Nozolino completa o seu raciocínio: “Eles aprenderam com isto a controlar as pessoas muito bem. Para mim a pandemia só acaba quando puder outra vez fazer as coisas como fazia antigamente. Não sei se isso vai ser possível”.
E é Rui Nunes que nos dá alguns dados sobre o ganho de uma situação anómala e extraordinária: “A pandemia deu-nos uma coisa a que nós já não estávamos habituados e se calhar nunca estivemos, deu-nos tempo. Fomos confrontados com o facto de ter tempo. Deu-nos a coisa melhor, a melhor prenda, um luxo. Há dois grandes luxos, o tempo e o espaço… “e o silêncio”, acrescenta, Paulo Nozolino.
Mas é Rui Nunes que desenvolve: “A pandemia deu-nos tempo para falar, deu-nos tempo para pensar, deu-nos tempo para ler, deu-nos tempo para ficarmos deprimidos, deu-nos tempo para recuperar, deu-nos tempo para ficar tristes, para ficar alegres. E ao mesmo tempo que nos deu tempo para isto tudo, deu-nos também a consciência disto tudo. E isso é das coisas melhores que há. Nós fomos confrontados connosco. Tornámo-nos mais próximos de nós”.
E o leitor da “Gazeta do Interior” que balanço faz da sua experiência do confinamento durante a pandemia Covid 19?
Que medos ultrapassou? O que ganhou em tempo para pensar a sua vida e o mundo que o/a rodeia?
Regressou à normalidade com mais frenesim ou conservou os hábitos adquiridos com a paragem forçada, incluindo-os como parte da sua identidade atual?
Já pensou no assunto? E já arranjou tempo para o debater com a família, amigos e vizinhos?