14 de junho de 2017

Antonieta Garcia
URGÊNCIAS

Uma manhã cheia de sol não se conforma com a entrada nas Urgências de um qualquer Hospital. Palavra pouco simpática diga-se, em abono da verdade. Mas pior era se não houvesse.
O sol? Qual sol? As luzes artificiais nos corredores cheios de macas com gente padecente de males que não sabe, apagam o dia solar lá fora. Desfoca-se o olhar num viveiro de cativos. Faltam anjos capazes de ensaiar o a, b, c, do alívio ou do milagre. Início de uma Via Dolorosa, médicos e enfermeiros giram em função da urgência que todos reclamam. Se a cura dependesse de preces, há muito que a maioria estava sã. Mas em dó maior soam ais, choros e gritos que os anjos não ouvem. O medo persegue e enlouquece os mais doridos. Sonhos agoirentos constroem um calendário de tristezas.
Soam nomes, entra um doente, sai outro… São vários consultórios. Oxalá me calhe um médico bom! Quando chega a minha vez? As macas e cadeiras de roda pontificam, mas há quem se desloque pelo seu pé, apoiado num familiar ou acompanhante.
Os enfermeiros não param. Numa lufa-lufa acodem, logo que podem, a crises renais, dores ciáticas, flebites, tonturas, e a outras (tantas!) desventuras visíveis e não visíveis que o pudor pede que se silenciem…
 - “Acudam-me! Acudam-me! Acudam-me…”
É uma senhora de cabelos todos brancos, magra de fazer dó, mãos de veias azuis, voz fina, aflautada a definhar. Não quer que lhe toquem? Sacode-se, agita-se como pode, nem a medição de temperatura é possível. O termómetro que, colocado no ouvido, regista em segundos o valor da febre sai derrotado pelo abanar contínuo da cabeça.
- “Ajuda aqui!”
Agora são duas enfermeiras: uma segura, outra age. Com todo o cuidado. As hemorragias sérias que a trouxeram às Urgências exigem transfusão de sangue. Não é fácil. Com as escassas forças que tem, enerva-se, desassossega, repele seringas… Temerosa? Mortificada? Atormentada?
 - “Acudam-me! Acudam-me…” Geme, mal as enfermeiras se afastam.
Uma delas, estagiária, novinha, há de voltar à maca muitas vezes. Fala-lhe, verifica se as seringas estão bem, compõe-lhe a roupa:
 - “Então D. Amélia? Vai passar…”
Uma palavra, uma carícia calam-na por momentos breves. Mas o fio de voz soa de novo, uma e outra vez, e outra…
Comenta uma senhora ao lado:
 - “Está mal, coitada! Bem pior do que eu!”
Uma jovem chora exausta. Uma idosa, ao lado, lamenta-se baixinho… Na maca apressada, chega um jovem muito jovem, todo amarelo… Atende-o logo o médico.
Agora entrou uma moça alta, bonita, esteticamente despenteada. Parece vender saúde. Vem com a mãe. Será? Qual está doente? Nenhuma diria. De repente, uma voz agressiva, provocadora, enche os corredores. Movimentam-se funcionários, doentes… Ataca, culpa, exige. Clama:
 - “Estou doente! E você…”
Estica o dedo, aponta-o, eleva o tom, acusa-o. O senhor reage com surpresa, assusta-se, no fim percebe.
 - “É doida!”
A mãe (?) tenta acalmá-la. Ajuda quem pode. A tranquilidade demora. Há culpados que ela escolhe. Mas todos entenderam. Deixam-na. Os enfermeiros não param. A estagiária novinha administra medicamentos, doses de ternura, palavras de apoio. Os olhos dos doentes fixam-se nela. É o Anjo da Guarda… e o pião das nicas. Chamam-na daqui e dali. Faz tudo. Sem um esgar.
 - “Ó senhora enfermeira! Olhe a jovem com a crise renal!!!”
É a mais velha, na profissão. Ensina, orienta. Confia nela o clínico.
 - “Pois é Doutor. E esta senhora?”
Vira-se para onde? Ela, a enfermeira, inventa uma música e dança faz-de-conta, enquanto prepara e aplica as seringas, a medicação…
 - “Vai, vai, vai e vem, vem e vai…” Bate o pé, saltita… Uma loucura saudável no labirinto de doentes e de males, e de urgências. Acaba ali, começa além, vai e vem… Dança pesada. Faz um minuto de intervalo, o suficiente para dizer alto e bom som: “Sabem? Quero morrer cedo! Quero ir para o Inferno. Lá há festas todos os dias. Nem precisamos de dormir, nem nada!”Está visivelmente cansada.
Dança de novo, modernaça, dedos no ar, braços enrolando a música que só ela ouve, saltos a compasso. Louca? Ainda bem! Inferno é aquele, ali. Com gente que chora, geme, torcida de dores, alguns a exaurirem-se devagarinho…
Sorrisos abertos, amarelos, reprovadores, danados, cada um a depender do estado de saúde dos presentes.
Morrer cedo? Os idosos são tantos! A paciência falta? Não vi. Mas o trabalho aperta e são insuficientes os que, como aquela estagiária, ainda menina, ainda encantada, ainda orgulhosa da profissão que escolheu, trazem o sol na algibeira e se dão sem um queixume!

14/06/2017
 

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