José Dias Pires
PRECISAMOS DA VELHA ESCOLA, PARA QUE HAJA UMA ESCOLA NOVA
Costuma dizer-se que se a vida é uma escola, o tempo é o professor que a cada um de nós ensina as devidas lições. O saber acumulado no dia-a-dia, fruto de experiências mais ou menos ricas ou meras vivências, atua como uma espécie de cartilha indispensável ao conhecimento do mundo. Constitui-se, por assim dizer, em escudo que nos protege contra golpes futuros.
Estes tempos de “escola em casa” podem levar-nos à tentação de imaginar que estamos a assistir ao nascimento de uma nova escola cujas janelas de estar e ver o mundo são ecrãs de computador ou de televisão.
Será mesmo assim? Está a chegar a nova escola?
Afinal, sem recurso às tecnologias emergentes, todos nascemos a saber voar: até aprendermos a deixar de gatinhar, voamos em sonhos, deitados nos berços; depois, até aos três anos, voamos baixinho a aprender a plástica, os sons, a cor e o sabor das coisas; finalmente, em espaços abertos, a partir dos quatro anos, voamos até onde nos levar a imaginação e a escola permitir.
A “velha escola”, que sempre partiu para a vida a partir de um confinamento voluntário entre quatro paredes, conduziu-nos pela ilusão de que voar é a substância da vida, e que andar é o seu complemento indispensável.
Nos primeiros anos da “velha escola”, apesar da falta das novas tecnologias, uns mais que outros, ganhámos asas, começámos a voar quase sempre longe das obrigações de ganhar competências incompetentes, aprender habilidades inoperacionais e lidar com saberes relativos.
Ano a ano, fomos ganhando a compreensão de que o melhor da infância é o mistério tecido nos encantos que nos obrigariam a esquecer depois de crescidos. Um mistério ao mesmo tempo sedutor e assustador, que morava naquele recanto da imaginação onde não havia limites nem barreiras, onde o sobrenatural se confundia com o comezinho e onde nada era impossível para quem voa, para quem sonha.
Nesta escola que agora pode parecer-nos velha, os alunos foram, de forma progressiva, aprendendo cada vez menos direta e exclusivamente dos professores e cada vez mais com eles, interagindo uns com os outros. Por isso, hoje, os professores já não são (felizmente) o centro do espetáculo, que passou a ser ocupado pelo conhecimento diversificado e partilhado, pela experiência vivida e de sentido útil, pelas competências capazes de gerar transferências, conjugando-se numa só expressão — capacidade de decisão e escolha.
Na dita “velha escola” foi crescendo a convicção de que quanto mais fácil e frequentemente os alunos acedam à informação (que corresponda aos seus interesses, e responda às suas expectativas de formação e realização pessoal), mais se lhes estrutura o comportamento aquisitivo a partir de projetos pessoais ou de grupo, enquadrados na dimensão histórica da compreensão do presente, para aceitação do passado que o fundamenta, capacitando-os para uma antevisão dos futuros.
A “velha escola” ganhou, há muito tempo, a certeza de que o tempo dos professores tende a ser gasto menos em aulas tradicionalmente estruturadas, unindo, de forma interativa e interdisciplinar, o seu esforço ao de outros professores, para preparar e avaliar material educativo, organizar dados e informações de modo acessível, para que mais tempo possa ser utilizado no acompanhamento ou na orientação dos alunos, ajudando-os a compreender e a distinguir o essencial do secundário, a aprender a navegar e a descobrir, nas vastas áreas da informação, como sistematizar e consolidar o que de facto interessa para gerar o sucesso da aprendizagem, das aplicações e transferências que dela decorram.
Por mais sedutores (e importantes) que sejam os meios tecnológicos agora tornados relevantes na “escola em casa”, a “velha escola” continua a ser a principal oportunidade de agarrar a Escola, de nos agarrarmos à Escola, de sermos agarrados na Escola (professores, alunos e comunidade), no que ela tem de partilha e consolidação dos grandes saberes básicos, ou do mágico sentido construtivo dos últimos degraus da personalidade que há-de projetar-se para lá das suas paredes, sem temer reformulá-la a tempo e nos seus tempos.
Nestes dias da “escola em casa” a comunidade educativa compreendeu e apoiou a calma agitada dos que saíram das tradicionais formas de funcionar na escola, para que fosse possível seguir em frente.
Sabemos que nem todos (pais, professores e alunos) serão capazes de vencer o tempo da mudança e alguns ficarão perdidos um pouco na inovação. Contudo, não fugirão, nem se darão por vencidos.
Na “velha escola” hão de voltar ao trabalho diário, carregando às costas os conhecimentos, as vitórias e também as derrotas (sempre necessárias), porque sabem que a mais sábia das vitórias é a que decorre das guerras nunca declaradas.
E continuarão a apelar à imaginação e à criatividade; a aprender e a ensinar a ser comunicativo; a transformar a escola num espaço apetecível e a sala de aula num apelo à motivação; a procurar novas estratégias; a recorrer às novas tecnologias; a saber infletir a gestão curricular perante indícios de desinteresse ou de desenquadramento; a incentivar a pesquisa e a descoberta e a testar, pelas aplicações e transferências, a riqueza das experiências e a validade das competências.
Acabemos, pois, com a eterna desculpa com o que nos vem de trás, fazendo e desfazendo as composições no nosso caleidoscópio pedagógico de acordo com as conveniências do momento, e olhemos, definitivamente, para o futuro, trabalhando, em implicação profunda e completa, tudo o que anteriormente referi, porque quem trabalha não precisa de adivinhar, descobre e chega lá com uma certeza: precisamos da “velha escola”, para que haja uma “escola nova”.