Edição nº 1691 - 19 de maio de 2021

Lopes Marcelo
O VALOR DA PROXIMIDADE

No mundo e tempo actuais, em que tanta informação está disponível e somos inundados com torrentes de notícias de tão variados assuntos e lugares afastados tão diversos, comentários e análises realçando quase sempre as notícias mais negativas e dramáticas, pouca atenção resta para o que se passa mais próximo. Muitas vezes saturados, até anestesiados por tanta informação, não damos valor e por vezes ignoramos o que se passa à nossa volta, na comunidade, na nossa rua e, até, no nosso prédio. Do ponto de vista psicológico e individual, funciona como uma carapaça de aparente defesa e protecção egoísta dentro da qual se gera uma progressiva insensibilidade que vai corroendo e comprometendo os afectos da relação de proximidade, da autenticidade e da transparência.
Do ponto de vista da vida em sociedade, tal atitude individualista, centrada em cada um tratar da sua vida, numa postura de auto-suficiência e de encolher os ombros com indiferença e desinteresse perante os problemas, as necessidades e os apelos de quem nos rodeia, revela uma postura egoísta em que é fraca a vibração das raízes, bem como a relação de pertença a um território e a uma comunidade. E, sem a vibração das raízes e a relação de pertença, fica em causa e até comprometida a capacidade e a disponibilidade para o envolvimento e participação na dimensão colectiva, na partilha de causas e de valores, que agregando vontades e colaborações plurais, permitem partir da relação de diálogo e proximidade para projectos e valores colectivos em que vale a pena acreditar para que seja possível melhorar a vida de todos. Trata-se da dimensão pedagógica, baseada nos valores da proximidade, da verdade e da transparência, que estabelece a ponte entre a atitude individual e a postura colectiva, em que todos temos responsabilidades, mas em que elas recaem sobretudo na acção educativa na escola, na relação formativa pais-filhos, no relacionamento chefias-empregados, na intervenção dos líderes políticos com os militantes, na acção dos gestores e agentes da Comunicação social com os seus públicos alvo. Tudo se joga na forma como conjugam e concretizam o seguinte aforismo: Diz-me e esquecerei; Mostra-me e lembrar-me-ei; Envolve-me e compreenderei; Depois de compreender, acreditarei!
Vale a pena sublinhar dois exemplos recentes da nossa vida colectiva em que os valores da proximidade, da verdade e da transparência andam muito mal tratados. O primeiro relaciona-se com o caso dos imigrantes que vêm trabalhar para o nosso país em explorações agrícolas sem o mínimo de condições humanas, sem direitos, em regime de quase escravatura, como é gritante na região de Odemira, entre outras. Toda a gente sabia que assim acontecia! As autoridades locais e a nível central, as chefias de polícia das fronteiras e as da garantia da segurança e bem-estar das populações, os eleitos locais nas Juntas de Freguesia e na Câmara Municipal, os dirigentes dos Ministérios, os dirigentes políticos, as autoridades de saúde, até o ACM- Alto Comissariado para as migrações, os bem instalados e oportunistas patrões. Todos sabiam, mas faziam de conta. Não queriam saber e apostavam em que não se soubesse. Há objectivos e interesses escuros a proteger, há favores em rede que bloquearam queixas e denúncias concretas, como o referiu a representante local da Ordem dos Advogados. Há alguns processos na justiça que se arrastam em hesitações, quando a realidade está ali, em incontornável evidência fotográfica E, se não tivesse sido a emergência sanitária do surto da actual pandemia, não tocariam os sinos a rebate. Tudo “continuaria na mesma como a lesma”, como em anos anteriores. Com é possível?
Um segundo exemplo em que os valores da proximidade, da verdade e da transparência, pilares essenciais da vida democrática são pisados, relaciona-se com a preparação das eleições autárquicas. De facto, estando em causa a gestão pública mais próxima das pessoas, devia ser mais relevante a apreciação em função das relações de proximidade, de verdade e de transparência, do que a imposição dos chefes partidários e a análise dos gabinetes centrais, dispondo as pedras do seu xadrez político conforme as suas estratégias e interesse de grupo. E temos situações aberrantes em que se impõe às bases: Presidente em exercício, que se queira recandidatar é intocável! Fez uma gestão equitativa e transparente? Cumpriu as leis do nosso Estado democrático? Tem processos em tribunal? O poder dito democrático é o vértice de redes de interesses e de favores pessoais que alimenta a tribo de compadrios e lealdade indiscutível? Há indignação e rupturas nas bases? Tudo isto existe mas não querem que se saiba! Nada disto é relevante para os altos poderes centrais. As ditas bases, que apenas importam para o piquenique eleitoral que aguentem! Os militantes servem para colar cartazes, decorarem números e eventos políticos mas, para pensarem pela sua própria cabeça e votarem nas suas secções de base, já não importam. Antes, são desconsiderados e até contrariados pois, ou tais reuniões e votações nas estruturas locais e regionais partidárias, devidamente, concretamente inscritas nos regulamentos e estatutos dos partidos não se realizam de facto ou, não servem para nada em face do poder central dos designados Partidos democráticos. Em que tipo de cidadãos nos estamos a tornar? Como vai o circo da nossa democracia sem as saudáveis relações de proximidade, de verdade e de transparência?

19/05/2021
 

Em Agenda

 
24/01 a 28/03
Well-being SceneryGaleria Castra Leuca Arte Contemporânea, Castelo Branco
11/02 a 30/04
RequintinhaCentro Cultural Raiano, Idanha-a-Nova

Gala Troféus Gazeta Atletismo 2024

Castelo Branco nos Açores

Video