Valter Lemos
PUTIN, A UCRÂNIA E O PCP
Os resultados das últimas eleições legislativas mostraram um declínio significativo do PCP. Esse declínio foi tão acentuado que muitos, ainda que simpatizantes ou votantes de outros partidos, não deixaram de ter alguma tristeza com esse facto. Afinal a simpatia de muitos cidadãos com Jerónimo de Sousa, aliada ao papel histórico do PCP na política portuguesa, traduzem-se em alguma aceitação daquele partido na sociedade portuguesa.
Mas, muitos desses portugueses tiveram um choque com as declarações de dirigentes e responsáveis do PCP acerca da invasão da Ucrânia pela Rússia. É difícil acreditar que tais declarações tenham sido proferidas. Ouvir esses dirigentes defender as ações de Putin, justificar a invasão, culpar os ucranianos, culpar os americanos e os europeus, é inacreditável e inaceitável. Culpar todos menos Putin e o regime russo é uma tão óbvia distorção da realidade que até soa como ultrajante da inteligência das pessoas.
Os factos indiscutíveis são estes:
- O exército russo invadiu a Ucrânia;
- Nenhum soldado ucraniano invadiu a Rússia;
- Nenhum soldado europeu ou americano invadiu a Rússia;
- A Rússia violou descaradamente o direito internacional invadindo um país independente sem qualquer ação ofensiva deste;
- Putin mentiu descaradamente a todo o mundo dizendo repetidamente que não iria invadir a Ucrânia (chamou até “histeria do ocidente” a essa hipótese);
- Putin ameaçou todos os outros países com “consequências nunca vistas” se interferissem na sua invasão da Ucrânia;
- Putin é o agressor e os ucranianos são os agredidos;
- Há civis ucranianos mortos e não há civis russos mortos.
Como é possível não responsabilizar Putin e o regime russo?
Putin tem mostrado não ter qualquer tipo de escrúpulos ou respeito pelo direito internacional e pela condição e pela vida humana. É uma personagem tenebrosa, que aparenta não ter limites morais ou éticos e que convoca o que de pior conhecemos na história política do século passado.
Todos sabemos que o PCP sempre seguiu cegamente a então União Soviética (URSS), reconhecendo-a como “o sol na terra”. A política da URSS era já caracterizada por defender discursivamente o direito à autonomia e independência dos povos, mas impedir na prática qualquer autonomia aos países sob a sua influência, como se viu bem nas invasões da Hungria e da Checoslováquia.
Mas a URSS desapareceu. Com ela desapareceu a respetiva versão concreta do comunismo soviético. A realidade política da Rússia, hoje, está afastada de qualquer versão conhecida de regimes de inspiração marxista. Na realidade o regime russo é hoje mais próximo do fascismo do que de qualquer outra ideologia. Há mesmo vários cientistas políticos que caracterizam objetivamente o regime como de tipo neofascista.
Porquê então a defesa de Putin e do regime russo por parte do PCP?
É possível que o antiamericanismo e antieuropeísmo do PCP seja tão radicalmente cego que conduza aquele partido a defender a ação escandalosamente injusta e violadora de todos os princípios, levada a cabo pelo regime russo?
Mesmo que fosse inequívoca a conduta que o PCP atribui aos europeus e aos americanos, como é que isso justificaria a brutal ação de Putin contra o povo ucraniano? Porque, convém sempre repetir, a ação dos russos não foi contra o presidente ucraniano ou qualquer outra entidade política daquele país. Foi contra o país e a sua população, ponto. As tropas russas têm matado, em concreto, militares e civis ucranianos, alguns completamente indefesos e as razões que Putin apresentou para isso são absolutamente inaceitáveis para qualquer cidadão medianamente informado, quanto mais para organizações muito bem informadas e altamente profissionalizadas politicamente.
Causa pena ver os dirigentes do PCP a tentar explicar a sua posição sobre a invasão da Ucrânia!
É verdade que já por várias vezes o antieuropeísmo e o antiamericanismo visceral do PCP foram a única racionalidade justificativa para algumas posições políticas. A definição pela negativa é normalmente pouco consistente e mobilizadora. Neste caso mostra-se até escandalosamente imoral.
Obviamente que ninguém retira ao PCP o direito a uma opinião e a uma posição assente na racionalidade e nos princípios que entender, mas, não há dúvida que os ucranianos deixaram de ter esse mesmo direito pela ação tenebrosa de Putin e do regime russo.