Edição nº 1735 - 30 de março de 2022

Patrícia Bernardo
A INTERVENÇÃO DA PSICOLOGIA NA GUERRA…

Nos últimos dois anos, a população mundial vive afetada por uma crise sem precedentes devido à Pandemia da Covid 19 e ainda não nos tínhamos recuperado das consequências inerentes a este facto, eis quando somos confrontados com notícias de que uma Guerra tinha despoletado na Ucrânia com efeitos também a nível mundial. Se avaliarmos bem de onde viemos em termos de ansiedade, reparamos que vimos de um período vulnerável, que juntou os três grandes aspetos em termos de ansiedade: mudança, adversidade e imprevisibilidade.
Importa, então, reconhecer que a guerra ou o conflito armado afeta psicologicamente todos, a população dos países diretamente envolvidos no conflito e a população dos países acolhedores, que acompanham o conflito à distância, pois, para além do trauma psicológico dos envolvidos na guerra, temos o trauma dos que sofrem ao perceber a aleatoriedade de toda a situação, por mais distante que pareça.
A forma como esta guerra nos chega pelos noticiários ou redes sociais podem ter o mesmo impacto emocional que vivenciar a guerra. Reações de stress pós-traumático, insónias, ansiedade, alterações de comportamento, de padrões de sono ou apetite são apenas alguns dos sinais de alerta a que devemos estar atentos. É importante haver uma seleção das fontes de informação de qualidade e verdadeiras. Também é uma sugestão, de forma geral, que haja uma redução da exposição a notícias. Para as pessoas mais ansiosas ou com problemas de sono, é mesmo desaconselhado que se vejam notícias à noite ou simplesmente, que não assistam.
Como lidar com a ansiedade que a guerra cria nas nossas vidas? Embora ainda distante…
O facto de assistirmos em direto a esta guerra pode ter quase os mesmos impactos emocionais e psicológicos como em quem vivencia “in loco”. A ansiedade é uma emoção difícil de gerir, mas na verdade tem como função ativar-nos fisiologicamente para sobreviver em caso de ameaça. Contudo, pode ser negativa quando é intensa e duradoura, pois interfere com a nossa forma de pensar, com o corpo (aumento de batimentos cardíacos, problemas digestivos, insónias...) e as reações com os outros e o mundo (as coisas que davam prazer deixaram de dar, desmotivação, etc)
Assim, falar com alguém em quem confiamos (amigo, familiar ou colega) e partilhar os nossos sentimentos e a nossa perspetiva sobre a guerra, ajuda. Identificar algumas ações que conseguimos controlar e concretizá-las é útil, pois traz a sensação de previsibilidade que a ansiedade nos retira. Envolvermo-nos em grupos de ajuda aos refugiados e vítimas da guerra. Reforçar ou introduzir atividade física ou outras atividades que possam dar prazer, e fazer exercícios de respiração e relaxamento. Introduzir ou reforçar hobbies, como desenhar, pintar, cozinhar ou ver uma série. Normalmente as atividades repetitivas ajudam a relaxar e a concentrarmo-nos em coisas diferentes. Escrever sobre pensamentos e sentimentos pode ser libertador. Se nada disto resultar, pedir ajuda especializada a um profissional da área da saúde mental pode ser útil, pois cada um de nós é único.
Em relação às crianças e perante este cenário, o ideal é abrir o diálogo sobre a situação, perguntando o que sabem sobre o que se está a passar, esclarecendo o que é e o que gera uma guerra (quando dois países ou grupos de pessoas lutam violentamente sobre coisas que consideram importantes). É importante falar do que podemos sentir nestas situações e validar as questões trazidas pelas crianças. Medo, revolta, inquietação e ansiedade são comuns e em crianças podem manifestar-se através da alteração do seu comportamento. Por isso devemos estar atentos se existirem mudanças no padrão de sono, de apetite, se regrediram em termos de desenvolvimento ou até se estão mais dependentes e “agarrados” aos adultos em quem confiam.
E como podemos ajudar aqueles que estão diretamente envolvidos?? Os que acolhemos por exemplo??
Os princípios básicos de intervenção nesses contextos e que chamamos de Primeiros Socorros Psicológicos são: 1 - PROTEGER (fazer com que as pessoas afetadas se sintam seguras e protegidas, por ex: abrigos/casas para vítimas e parentes, centros de reuniões, etc. Também áreas para os participantes descansarem, trocarem opiniões e se coordenarem. 2 - SER DIRETO (através as instruções necessárias das tarefas que a pessoa afetada deve fazer. Lembramos que, na fase de impacto, a vítima pode sofrer alterações na capacidade de processar informações, de modo que a nossa ajuda nesse sentido se torna fundamental. 3 -AJUDAR NOS CONTATOS (para o qual é necessário fazer uso de recursos que facilitem retomar contato com familiares e conhecidos, lugares que fornecem informações, etc..) 4. INTERVIR (garantir necessidades básicas às vítimas, como: água, comida; facilitar o espaço pessoal; facilitar o contacto pessoal por meio de conversas, escuta ativa, empatia etc; ajudar a encontrar familiares e amigos; facilitar o luto se houver perdas pessoais que facilitem a expressão da emoção; ajudar a controlar as reações de stress (técnicas de relaxamento, estratégias para mudar pensamentos, possibilidade de encaminhar um especialista para uma intervenção mais específica.
Em termos conclusivos gostava de deixar um conceito para reflexão, que embora ainda relativamente desconhecido em Portugal, na Europa e nos Estados Unidos está em franca expansão e que é a PSICOLOGIA DA PAZ (Peace Psychology). Esta área tem como objetivo a aplicação dos conhecimentos e métodos da Psicologia à prevenção dos conflitos e à promoção dos direitos humanos e da paz. O enfoque da Psicologia nestas temáticas emergiu em pleno contexto de Guerra Fria, quando as preocupações com a hipótese de uma guerra nuclear ser desencadeada levaram alguns psicólogos a contribuir para os esforços de prevenção da guerra e de promoção da paz. Desde então, a Psicologia tem oferecidos vários contributos nesta área, o que dará muito que PENSAR!!!

30/03/2022
 

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