Edição nº 1742 - 18 de maio de 2022

Lopes Marcelo
AS NOSSAS RUAS – III

AmatoRua Amato Lusitano. Irradiando da rua onde vivo, volto a abordar o que distinguiu a personalidade que mereceu dar nome a mais uma rua da nossa cidade. Pretende-se contribuir para a divulgação da vida e obra dessa personalidade, já que na placa toponímica apenas consta o respectivo pseudónimo. João Rodrigues nasceu em Castelo Branco em 1511, filho de pais judeus convertidos a cristãos-novos, estudou medicina na Universidade de Salamanca e voltou poucos anos para Portugal devido aos perigos das perseguições da Inquisição. Notável médico e erudito, dominava várias línguas: latim, grego, hebraico, árabe, castelhano, francês, italiano e alemão. Cedo viajou pela Europa vivendo em Antuérpia onde publicou o seu primeiro livro em 1536: “Index Dioscorides” ainda com o seu nome e se dedicou ao estudo das plantas para efeitos medicinais. Mais tarde adoptou o pseudónimo Amato Lusitano com o qual passa a assinar as suas obras. Desde o tempo de estudante se dava a conhecer como João Rodrigues de Castelo Branco.
Passados alguns anos, estabeleceu-se em Itália, na cidade de Ferrara, tendo sido Professor de medicina na Universidade e iniciado a escrita da primeira Centúria. Deslocava-se várias vezes a Roma e foi médico do Papa Júlio III. Em 1553 vivendo em Ancona, publicou em Veneza a sua segunda obra: “In Dioscorides Enarrationes”, já com o pseudónimo Amato Lusitano. Dada a sua origem judaica, em face do reascender da Inquisição com o Papa Paulo IV, em que os agentes da Inquisição lhe confiscaram os seus bens, teve de abandonar Itália em direcção ao Império Otomano, tendo sido médico do Grão-Turco e vivendo em Ragusa e Tassalónica cidade com forte presença judaica. Foi nesta cidade, hoje Salónica grega, que escreveu a sua sétima e última Centúria e morreu aos cinquenta e sete anos vítima da peste que tanto ajudou a combater.
O Dr João Rodrigues foi um notável cientista, tendo descoberto a circulação do sangue e descrito as válvulas venosas. As “Centúrias das Curas Medicinais” são o seu maior legado à Humanidade. Cada Centúria descreve cem casos clínicos ou curas, referindo os pormenores de cada caso: a idade do doente, a descrição da doença e a terapêutica utilizada com comentários e reflexões sobre o ambiente e a hierarquia social, os hábitos alimentares, o quotidiano e as tensões económicas e políticas circundantes. Para além de um grande e notável médico, deixou-nos um notável registo das características sociais e das grandes questões e problemas da sociedade em que viveu, o que o revelou como arguto historiador da realidade do seu tempo.
Foi um dos mais importantes precursores do Movimento da Renascença no âmbito da Europa. É um dos mais notáveis albicastrenses de sempre. O seu nome, para além da rua que deu o mote a esta crónica, foi atribuído ao nosso Hospital Distrital, bem com a um dos Agrupamentos Escolares da cidade. A sua vida e obra têm sido estudadas e divulgadas no âmbito das Jornadas Medicina na Beira Interior, da Pré-história ao século XI – Cadernos de Cultura que se têm realizado anualmente em Castelo Branco ao longo das últimas décadas, em que se tem destacado o mérito e a dedicação persistente de dois distintos albicastrenses, o poeta Dr António Salvado e o médico Dr António Lourenço Marques. Em frente à Câmara Municipal a sua imponente estátua a todos nos interpela a conhecer a sua vida e obra que é parte indelével da história albicastrense e da nossa identidade cultural.

18/05/2022
 

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