Edição nº 1742 - 18 de maio de 2022

Maria de Lurdes Gouveia Barata
O PREÇO DA LIBERDADE

Cheguei à varanda do sol pleno da tarde, um sol demasiado quente para Maio (pensei) e, encostada ao peitoril, pus-me a passear o olhar pela rua, sobretudo pelos jardins vizinhos a rebentarem de cores floridas entre os verdes. Asas passavam na minha frente, poisavam os pássaros nos fios eléctricos e nos telhados, um deles aventurou-se em poiso na grade do jardim, tão perto do chão que pôs um gato malhado em quietude de preparação de salto. Há sempre um momento de sorte num hipotético descuido de presa à vista, que logo voou leve e alegre para decepção do bichano. Entreguei-me também à sinfonia dos chilreios, encantada e distraída dos papeis que tinha lá dentro.
De vez em quando, vêm-nos memórias e o concerto de trinados evocou uma fábula de Bocage, «O Passarinho Preso», por antinomia a esta liberdade visível e leda. Lembrei-me do pássaro preso na gaiola, lamuriento por não voar nos céus… Não é que me deu para procurar essa fábula em verso e recordá-la? É que havia algo que queria mesmo lembrar, porque o pássaro aparecia feliz no final dentro da gaiola. Tinha acontecido o seguinte: o passa-rinho queixoso acusava quem o prendera, o caçador, de não respeitar a liberdade dos outros: «Ah! Se a vossa liberdade / zelosamente guardais, / como sois usurpadores / da liberdade dos mais?». O passarinho preso assiste depois a uma situação do seu poiso de prisioneiro: o caçador vinha no caminho depois da caça e «trazia encostado ao ombro / o arcabuz fatal, e horrendo, / e alguns pássaros no cinto, / uns mortos, outros morrendo». E o passarinho prisioneiro tira uma conclusão (e a conclusão das fábulas pretende ser conselho e lição), sendo neste ponto que se levanta o dilema que se deduz da última fala do pássaro: «Entendi que dos viventes / eu era o mais infeliz: / que outros têm pior destino / aquele exemplo me diz. // Da minha sorte já agora / queixas não torno a fazer: / antes gaiola que um tiro, / antes penar que morrer». É exactamente nos dois últimos versos, constituindo a moral da fábula, que se levanta a dubiedade da escolha: a vida é o bem mais precioso, é para ser vivida apaixonadamente, não se tornando uma pena, mas a liberdade será essência do viver com paixão… O final da fábula não deixa impasse, opta por viver a qualquer preço. Todavia, levanta-se a hesitação… viver a qualquer preço? aqui está o dilema.
Veio-me de atropelo a célebre frase histórica de D. Luísa de Gusmão, casada com D. João de Bragança, futuro D. João IV: «mais acertado morrer reinando, que acabar servindo», embora neste caso se instaure uma função de poder (que também nos levaria a outras reflexões).
Logo me veio ao pensamento a guerra da Ucrânia e a sua luta pela liberdade, uma luta decidida até à morte. É uma luta heróica pelo ser, pela dignidade da vida. A liberdade é um valor de princípio e fim e por isso há a resistência ao usurpador, que parece ter sido tomado de demência. Não será mesmo um demente megalómano? Um aprisionado na crueldade, na indiferença perante todos os outros e as suas opiniões, na falta de raciocínio lógico e ético - um aprisionado de si próprio. Ele não é livre, porque «querer-se livre é também querer livres os outros», disse Simone de Beauvoir. Também disse Fernando Pessoa: «Primeiro sê livre; depois pede a liberdade». Assim, a vivência interior da liberdade, o querer a liberdade por sentimento e por convicção, eis o passo fundamental. Lembro um dos mais belos poemas sobre liberdade, o de Miguel Torga, publicado no Diário XII. É constituído por três estâncias e toma a forma de Padre-Nosso, uma verdadeira oração a pedir a liberdade. Na primeira estância, o primeiro verso - «Liberdade, que estais no céu…», na segunda, o primeiro verso - «Liberdade, que estais na terra…» invoca respectivamente a divindade e a terra (os homens) e não obtém resposta, só silêncio. A terceira e última estrofe continua a oração:
(…)
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

A súplica é ouvida: descobre a liberdade, o primeiro modo de ser livre é ter a liberdade dentro de si, a liberdade interior que sabe sentir esse dom e condiciona conscientemente a luta por essa liberdade – a sua e a dos outros.
A liberdade tem um preço. O exemplo vem da Ucrânia. Na Ucrânia está o mundo. A liberdade nunca poderá curvar-se diante dos ditadores e dos opressores.

18/05/2022
 

Outros Artigos

Em Agenda

 
Não existem registos a listar!

Gala Troféus Gazeta Atletismo 2024

Castelo Branco nos Açores

Video