João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
HAVERÁ ALGUÉM QUE AINDA SE LEMBRE do motivo que levou à constituição da Comissão Parlamentar de Inquérito à Gestão Política da Tutela da TAP? Um trabalho que os deputados deveriam ter terminado por estes dias, mais concretamente, 23 de maio, mas que por impossibilidade de cumprimento do prazo, tantas eram as audições ainda por realizar, teve o prazo de ser prorrogado por mais 60 dias. Se o objeto principal da investigação fosse o mesmo que deu origem à sua constituição, já os deputados inquiridores estariam por estas horas a arrumar papéis e a redigir as conclusões.
Mas acontece que já pouca gente se lembra do ponto de partida, a questão da indemnização de meio milhão de euros a Alexandra Reis, ex-administradora da TAP. Que teria seguido a sua vida profissional na aviação, na empresa ao lado e com o meio milhão embolsado, se o ministro das Finanças, Fernando Medina não tivesse tido a ideia de a convidar para secretária de Estado do Tesouro. Logo que tomou posse, os chatos dos jornalistas começam a investigar o passado recente da nova secretária de Estado e a trazer a público a estranheza pela indemnização de tão alto valor. E a questionar a responsabilidade pela atribuição da indemnização. Daí à crise política e à constituição da Comissão Parlamentar de Inquérito (com a aprovação do PS, diga-se) foi um pequeno passo.
E abriu-se a caixa de Pandora, com uma sucessão vertiginosa de casos, cada um mais grave que outro, a demonstrar uma gestão política desastrosa da TAP e um ministro das Infraestruturas a tomar um protagonismo próprio de personagem de qualquer telenovela de má qualidade. Enredado na sua própria narrativa, no caso do adjunto entretanto demitido, cada vez que relata um fato da triste história que é este Galambagate, acrescenta-lhe um ponto que piora ainda mais o enredo e que envolve novos ministros ou mesmo o primeiro ministro.
António Costa tem de criar rapidamente condições para pôr um ponto final na novela, que incluiu interrogatórios em direto, transmitidos da Assembleia pelos canais de notícias até às duas da madrugada e intermináveis horas de painéis de comentadores a carregar sempre as cores da crise. E se não fosse pouco, tivemos ainda Cavaco a animar as hostes dos partidos de direita, com críticas duríssimas e ferozes que denunciam o rancor e nenhuma simpatia que desde sempre manifestou em relação a António Costa, que deve tirar rapidamente todas as consequências deste episódio negro da sua governação.
Porque de outra forma, nem os bons resultados económicos, com um dos maiores crescimentos da economia de entre os países comunitários, nem a mais baixa taxa de desemprego dos últimos meses, serão suficientes para voltar a dar ânimo ao eleitorado que ainda há tão pouco tempo deu maioria absoluta ao PS. A não ser que o bom funcionamento da economia e a aplicação do PRR, chegue de alguma forma aos bolsos e melhore as condições de vida dos portugueses que agora se afrontam com os custos da alimentação, das rendas e em particular, dos encargos elevadíssimos e inesperados dos empréstimos à aquisição da habitação. E que queriam tudo menos ter de aturar estas trapalhadas.