Edição nº 1913 - 24 de setembro de 2025

Joaquim Bispo
O INCENDIÁRIO

Mauro pediu mais uma cerveja. Não conseguia esquecer a imagem de Carla a cochichar com as amigas e o som atroz dos risinhos. Para a menina do papá, era muito fácil rir-se dele. Com 19 anos, sem um telemóvel de jeito, sem carro, a ter de aceitar os biscates que aparecessem, sentia-se esmagado pela pasmaceira da aldeia encravada entre montes de pinheiros e eucaliptos.
No dia seguinte, ao lusco-fusco e com uma brisa de feição, Mauro tomou o antigo trilho dos moleiros, serra acima. Meia hora depois, chegou a um matagal. Escolheu uma área bem densa e seca e instalou o seu engenho - uma cana oca cheia de musgo seco, com uns vinte fósforos na ponta. Junto a essa ponta, três acendalhas, uma boa dose de caruma e gravetos de giesta. Depois de confirmar que tudo estava estável e aplicado, acendeu a ponta inicial da cana e subiu para um ponto da serra afastado mais de cem metros, de onde podia assistir ao eclodir do fogo.
Assim que o musgo em brasa atingiu os fósforos, foi tudo muito rápido: chamas surgiram, os gravetos incendiaram-se, em breve a giesta a que estavam ligados começou a arder e depois outras giestas em todas as direções, até o fogo atingir o eucaliptal anexo, onde as línguas de fogo começaram a trepar por dezenas de metros. Em pouco tempo, o incêndio tinha uma frente de quase cem metros e uma altura de vinte ou trinta. A potência e o fulgor das labaredas impressionavam.
A salvo e com a retirada planeada, Mauro deliciava-se com a magnificência e a sofisticação daquele espetáculo. Os múltiplos tons de laranja, amarelo e vermelho, enquadrados por auras cinzentas de fumo, sobre o fundo já escuro do céu criavam um quadro vivo e arrebatador. As chamas dançavam e insinuavam-se, lascivas, por entre troncos, ramos e folhagem. O calor começava também a atingi-lo, a impregnar-lhe o corpo, através da roupa. Envolvido por aquele ambiente de volúpia, não negou ao corpo a ajuda que pedia. À medida que o lume saltava com rapidez de árvore para árvore e as línguas de fogo lambiam os indefesos troncos eretos, a excitação disparava. O clímax intenso, com o seu efeito de alheamento, quase o deixou à mercê das chamas.
Após um momento, para voltar à realidade e recuperar o controlo, desatou a correr pela vereda que contornava o monte até ao trilho que trouxera e em vinte minutos estava em casa.
Essa foi uma noite em que Mauro não dormiu. Nem os outros habitantes de Lage Fundeira. Em poucas horas, o fogo ganhou três quilómetros de frente. Pela manhã, o horizonte estava escondido por rolos de fumo negro. Surgiram dois pequenos aviões de ataque a fogos a lançar jorros de água sobre as chamas e a levantar enormes nuvens de fumo branco. Parecia um cenário de guerra, ou, pelo menos, dos filmes de guerra. Pelo meio-dia, temeu-se que as chamas chegassem à aldeia. Houve ordem de evacuação, mas Mauro conhecia a região. Foi instalar-se junto de uma ermida no monte fronteiro, de onde podia continuar a presenciar o espetáculo das chamas e de todo o aparato para as combater. À tardinha, o fogo tinha ultrapassado a serra e, finalmente, toda a gente pôde voltar a casa e contabilizar as perdas: quatro tratores e uma dúzia de palheiros e cabanais ardidos, gados tresmalhados, muitos hectares de floresta queimados.
Os telejornais mostraram uma reportagem do incêndio e, pela primeira vez, Lage Fundeira apareceu na televisão. O orgulho de Mauro foi difícil de conter. Apetecia-lhe abordar Carla, olhá-la de frente e contar-lhe: «Fui eu!» Mas ela, como sempre, não lhe daria valor por isso e talvez até o denunciasse.
Um ano depois, Mauro continua sem carro, sem namorada e sem trabalho certo. Mas já não tenciona voltar a incendiar a serra. Sente até algum arrependimento. A encosta negra está longe de lhe transmitir os apelos lúbricos que a floresta viva e verde tantas vezes lhe proporcionara.

24/09/2025
 

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