Guilherme D'Oliveira Martins
UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA
Javier Cercas aceitou acompanhar o Papa Francisco na viagem à Mongólia e o resultado é uma obra de antologia. «O Louco de Deus no Fim do Mundo» (Porto Editora) é um diálogo apaixonante, entre um ateu confesso e o Sumo Pontífice. Nunca tal tinha sido feito, e percebemos que num diálogo entre pessoas civilizadas todos ganhamos – porque a fé é um dom que sopra onde menos se espera.
Hannah Arendt num ensaio célebre sobre o papa João XXIII conta que uma velha criada romana lhe disse que não compreendia como um Papa poderia ser um verdadeiro cristão, como ele. “Ninguém se terá apercebido de quem ele era?” E a filósofa alemã comentava: “A relutância da Igreja em nomear para altos cargos esses raros indivíduos cuja única ambição consistia em imitar Jesus de Nazaré não é difícil de compreender”. E Cercas pergunta: «Seria Bergoglio um desses poucos? (…) Seria Francisco um segundo João XXIII, o protótipo de um papa calmo, humilde e sem ambições, e por isso teve a ideia inicial de se chamar João XXIV (e a ideia final de se chamar Francisco)? Bergoglio será simplesmente um verdadeiro cristão sentado na cadeira de São Pedro? A Igreja ter-se-á enganado ao elegê-lo, tal como, segundo a criada romana de Hannah Arendt, se enganou ao eleger João XXIII? Será esse o segredo de Bergoglio?» Esta a grande interrogação que está presente ao longo deste diálogo. Os pontos relevantes são múltiplos e estamos perante o modelo de um encontro inteligente que lança pistas interessantes e inteligentes. E descobrimos, com o cardeal Tolentino, que é poeta, e com Javier Cercas, que a fé é uma intuição poética que só se pode expressar em linguagem poética. Mas encontramos ainda um caso prático com orientação dada pelo Papa, sobre a Doutrina da Fé, que certamente teria enchido de raiva o Grande Inquisidor de Dostoiévski: “O dicastério (…) noutras épocas chegou a utilizar métodos imorais. Foram tempos nos quais, mais que promover o saber teológico, se perseguiam possíveis erros doutrinários. O que espero de ti é, sem dúvida, uma coisa muito diferente”. E o destinatário dessas palavras completa. “Perante uma acusação, o dicastério deve ser um espaço de debate com essa pessoa, um instrumento que nos permita averiguar se esse alguém tem uma inquietação legítima que talvez seja preciso ter em conta, ou se algo que, à primeira vista, parece um erro, pode ser, na realidade, uma tentativa de expor um aspeto ou um problema que foi esquecido ou que não foi suficientemente pensado pela Igreja”… Os tempos da Igreja são longos, o amadurecimento dos consensos é difícil. Compreende-se assim que seja preciso dar passos seguros. Mas há também quem se impaciente… O Papa Francisco, porém, condena o clericalismo nas suas diferentes manifestações…
Mas qual o segredo de Begoglio? Diz-nos Javier Cercas: “O segredo de Bergoglio é que não tem segredo nenhum: o segredo de Bergoglio é ser um homem comum e corrente”. Mas há o risco da mistificação. O eu pessoal e o eu social contradizem-se. “Definir o Papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo”. É o próprio Papa quem o esclarece. “Francisco oculta Bergoglio, mas revela o seu desejo de ser Francisco”. Como leitor apaixonado de Chesterton, cultiva a humildade e demarca-se do orgulho satânico, mas não esquece as contradições íntimas, a lembrança das dificuldades, das angústias e dos problemas sentidos na Argentina. E é a conquista da humildade que o torna um cristão sentado na cadeira de São Pedro.
Três partes compõem este percurso: À Procura de Bergoglio; os Soldados de Bergoglio e o Segredo de Bergoglio. Há um jogo de procura e descoberta. “Foi para isto que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo”.
Ao ler o livro, compreendemos que a realidade humana esta cheia de elementos contraditórios. A Igreja surge como uma realidade viva, que se relaciona com o mundo como expressão da humanidade, com os seus defeitos e virtudes. E Javier Cercas desempenha exemplarmente o seu papel de interrogador e de analista, como um escritor sério que não se deixa levar pelas aparências, mas que sente a riqueza de uma realidade milenar que tem fortes raízes e busca a essência da vida…
Trata-se de uma viagem extraordinária em que podemos compreender a essência de ir ao encontro do outro e do diferente. Mais do que ir até à Mongólia na senda de Kublai Khan, nós relembramos a essência da aventura dos portugueses no mundo. Fomos ao encontro do que estava para além dos limites e assim “demos novos mundo ao mundo”. E quando nos dias de hoje há quem alimente dúvidas sobre as virtudes de uma tal audácia, apenas temos de responder que o alargamento de horizontes permitiu entender a importância da universalidade da dignidade humana, que apenas assim se tornou possível. E há um longo caminho a percorrer.