Maria de Lurdes Gouveia Barata
ANO NOVO COM A DÚVIDA E COM A ESPERANÇA
Este 2026 entrou com os costumeiros fogos de artifício que são deslumbramento de arrebol de luzes com as cores do arco-íris. Começa-se logo pelas passagens de ano mais depressa chegadas, que os canais televisivos vão apresentando, enquanto esperamos a passagem que vai ter concretização no nosso país, num lugar onde estamos, com uma certa ansiedade de espera, como se fosse caso disso…
Ouviram-se os primeiros foguetes com um gorgolhar de afogamento no nevoeiro que descera lento e sub-reptício, envolvendo a cidade e o pior para a expectativa aconteceu: qual fogo de artifício, qual quê. Nada se via. Mas ainda vislumbrei uma luzinha azul desmaiado por cima da chaminé de um prédio… o arco-íris do encantamento escondeu-se nas nuvens que tinham pousado na terra, provavelmente estava cheio do frio que já vinha do Ano Velho, insidioso e encharcado de chuva miúda e enrolado nas dúvidas que já eram as de um estado vivido em cenários de guerras que nunca mais acabam e em interrogações dum futuro, que o quadro nevoento parecia adensar. Todavia, a passagem de ano é sempre celebração. Cruzaram-se as taças de champanhe, cerraram-se os olhos para os bons desejos e o momento passou, meio desfocado, com desejos de Bem: um 2026 melhor. Há canções e poemas a proclamá-lo, como a «Ladainha para o Novo Ano» de António Salvado:
Morreu um ano. Outro nasce
com mil ilusões também –
e é sempre igual o disfarce:
ter por bem o mal que vem.
Porém a esp’rança não morre:
o que é feliz alcançar!
chegar ao cimo da torre!
(ai, mas do chão não passar…).
A dias dias juntar,
meses, meses a correr
até outr ‘ ano matar
e saudar outro a nascer!
E que havemos de fazer
enquanto ele não chegar?
A esperança recriar!
Ela não pode morrer!!!
Busca-se sempre um intervalo de alegria agarrada à esperança, que não se pode abandonar. Contudo, a intranquilidade persiste e foi esta palavra, intranquilidade, que me fez lembrar um poema de Pablo Neruda («Ode à Intranquilidade») de que faço um pequeno excerto: «(…) A mente intranquila / inaugurou os mares, / a desordem fez / nascer o edifício. / A cidade não é / imutável, nem a tua vida / adquiriu a matéria da morte. / Viajante, vem comigo. / Daremos / grandeza aos bens da terra: / Transformaremos a espiga. (…)». Efectivamente, estar intranquilo é estar vivo e pronto para enfrentar dificuldades e seguir no caminho da vida com bandeiras de paz e liberdade e solidariedade. Estar demasiado tranquilo pode ser egoísmo, indiferença e acomodação confortável A democracia corre perigo. Não basta apregoar que se é democrático, é preciso prová-lo. Há quem persiga obsessivamente um Nobel da Paz e é um fazedor de guerra. Invade um país soberano, rapta o seu Presidente e vai julgá-lo em terra alheia sem apresentar provas. Mesmo com a constatação de uma ditadura feroz na Venezuela, o Direito Internacional não permite tal incursão. Há muitos países com ditadores; irá a todos? Deve depender da hipótese dos honorários petrolíferos que obriga a pagar à Venezuela - «Perfurar, baby, perfurar». E, embora eu não tenha designado o Sujeito disto tudo, todos sabem que se trata daquele caso de demência. A conquista de território deve continuar com a Gronelândia. Magister dixit: «A bem ou a mal a Gronelândia vai pertencer aos EUA». A lógica é pesada: não quer ter maus vizinhos, porque a Rússia e a China, que andam a rondar a Gronelândia, podem apanhá-la… Mas vou deixar de falar de guerra, das guerras que vão pelo mundo e afectam toda a humanidade.
O desgaste da democracia consubstancia-se ainda na falsa informação, que se banaliza em mentira, que alimenta guerras, destrói pessoas que não se pretendem como adversários políticos. Campeiam a intriga, a ganância, a ostentação, a inveja, a mediocridade. Uma base de ignorância subjaz frequentemente a essa mediocridade. Há como que um endurecimento da sensibilidade humana, não respeitando a vida do outro, como se todos os valores de humanidade tivessem desaparecido. É impressionante a indiferença perante quem morre, a indiferença perante quem apenas sobrevive num mundo cada vez mais desigual.
Os tempos conduzem também aspectos positivos, que terão reverso de medalha, mas que ratificam a criatividade humana. O desenvolvimento tecnológico trouxe a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA). Penso que este assunto interessa a toda a gente. Li, na Revista do Expresso de 26 de Dezembro de 2025, uma longa entrevista de Clara Ferreira Alves a António Damásio, um dos neurocientistas mais conceituados do mundo, com esclarecimentos sobre as novas descobertas em curso. A evolução das descobertas do funcionamento do nosso cérebro a nível de sentimentos e consciência de si é espantosa, mas não vou perder-me nessa reflexão. Parece-me importante destacar ideias, que vou transcrever, do próprio neurobiologista, quando afirma que «não estamos sozinhos. Estamos com os outros. Estamos com aqueles de quem descendemos, estamos com aqueles que possam ser a nossa descendência e estamos com todos os outros. (…) Há uma mente afectiva, que é o começo das coisas. Há uma mente intelectual, entre aspas, enriquecida pela linguagem, que permite a descrição dos problemas e a tentativa de resolução dos mesmos. E depois acontece a construção gradual de estruturas, que são as estruturas sociais, que conhecemos através da história, mas que são também a expressão dessa condição humana, uma condição afectiva e uma condição intelectual, porque temos de facto duas». Quase no final da entrevista, António Damásio dá uma opinião sobre o desenvolvimento da IA, porque esta não está preocupada com a regulação da vida porque não tem vida, (…) não tem coisas inquietantes, tal como a dor; foi construída pela nossa inteligência e pela nossa capacidade de engenharia. Depois de pormenores explicativos, conclui numa resposta à entrevistadora: «Há a possibilidade de alguns desses organismos se transformarem em organismos rebeldes e começarem a ter uma certa autonomia. E aí o futuro é perfeitamente aterrador.». Aliás, tenho lido opiniões semelhantes de cientistas de renome sobre essa hipótese. Espero (porque resumi muito) ter conseguido dar a ideia duma ameaça que parece preocupar.
Comecei por dizer que este Janeiro de 2026 entrou a mancar e com dúvidas nevoentas. Mas o ser humano não desiste de recomeços que se penduram na esperança. O homem é o Sísifo que carrega a sua pedra até ao cimo da montanha, donde rebola, voltando ele a descer para carregá-la de novo. Por isso, termino com um poema de Miguel Torga:
SÍSIFO
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...