Edição nº 1931 - 28 de janeiro de 2026

Elsa Ligeiro
MUDAR DE VIDA

O início de cada ano é sempre um momento de balanço e da inevitável promessa de mudança.
Entre continuar a vida sem tempo para nada e um ano todo à nossa espera: dispomo-nos a valorizar o tempo para mudar de vida.
Infelizmente, mudar de vida depende cada vez menos de uma opção pessoal, tal a interdependência e o agrilhoamento que o sistema coloca a cada habitante deste nosso planeta azul.
Vivemos, ainda assim, numa Beira Baixa com uma paisagem deslumbrante e variada que vai da neve da serra à planície dos sobreiros; território que alguns tentam ocupar com megacentrais de painéis solares, julgando que este território é pobre e abandonado, e está à venda por baixo preço.
E que as pastagens e árvores, ribeiras e rios com espaço para o olhar se expandir, se trocam por um qualquer capital financeiro multinacional que apenas deseja o que todo o capital sem rosto tem como finalidade: o lucro empresarial.
Mudar de Vida, em 2026, já não é uma tarefa para assinalar no calendário do Ano Novo a nova marcação semanal no ginásio; a disciplina organizada de caminhadas; ou o juramento que este ano é que se arranja tempo para ler, ir ao teatro, ao cinema, ou dar atenção à família e aos amigos, património pessoal que devia ser inegociável.
Mudar de Vida neste ano de 2026, ainda em democracia, já não podemos disfrutar da Liberdade sem preocupações de que ela se perca ao virar da esquina de um novo ano. É necessário defendê-la dos que sem memória do passado, dos avós, embarcaram facilmente em todas as promessas eleitorais, julgando que tudo lhes seria dado (bastando apenas votar); e, hoje, se sentem vazios e abandonados; multiplicando a sua frustração pela inveja, e seguindo discursos de ódio (que julgam apenas de força), num aproveitamento obsceno do desespero de muitos.
A Vida Toda desde há muitos anos que se transformou em negócio; o imperialismo que julgávamos ultrapassado regressa na voz do “aliado” que decide quem tem guerra ou quem tem paz.
Não é verdade que já falamos a língua dele, comemos a sua comida de plástico, navegamos nos seus computadores, calçamos os seus sapatos desportivos e consumimos a sua ficção de super-heróis que nos protegem de invasões galácticas?
E se antes tudo era ainda tratado com o verniz da hipocrisia da ajuda externa, dos valores de uma constituição democrática; com alicerces de um Iluminismo importado de França, esse grande aliado da guerra da sua Independência contra os ingleses; e os de Leste nos convenciam que a Revolução de Outubro tinha terminado com a corte dos czares; e que no Oriente pareciam apenas sobreviver à fome na sua ruralidade endémica e ancestral; em 2026, a realidade é crua e com pouca esperança.
Os homens de negócios tomaram finalmente todo o poder. Têm a seus pés biliões de consumidores para aumentar os seus negócios pessoais. “O Estado sou eu”, já não é uma frase histórica de Luís XIV. É a realidade, espalhada do Ocidente ao Oriente.
O triunfo do capitalismo como nova ordem internacional; seja na forma de empresas ou oligarquias.
A política, ao contrário do que o populismo tenta fazer crer não é uma atividade fácil; e a Democracia constrói-se e defende-se com paciência e respeito por todos (mesmo os que não a merecem e a usam despudoradamente); e pede a quem se dedica ao serviço público uma disponibilidade total de tempo e de exposição popular.
Exige princípios e resistência alicerçados na Cultura da História que herdámos para defender e melhorar (muitas vezes com duros combates).
Cultura: essa grande matriz que nos dá a possibilidade de confrontar o nosso tempo com a História e combater a barbárie.
Quantos jovens com ideias nobres desejam, hoje, lutar pelos inspiradores ideais que permanecem à nossa espera em arquivos e bibliotecas? Poucos.
Mas ainda os há, e fazem a diferença. Ainda há jovens como o Jorge Pinto (só um exemplo) que avançou contra a hipocrisia dos que olham a política como um espaço facilmente navegável, ao alcance de qualquer um, mas que não saem do sofá para a luta; especialmente se ela se apresenta desigual como na parábola bíblica de David e Golias.
Ainda há discursos inspirados no humanismo que, apesar de tudo, esta velha e enganada Europa ainda é capaz de defender, como o do vencedor das eleições presidenciais do dia 18 de janeiro, António José Seguro, na noite eleitoral.
Enquanto ainda tivermos portugueses e europeus justos, herdeiros de Voltaire, Steiner, Turing, Pessoa, Picasso ou Gogol, capazes de fazer frente à tentação de embarcar na proteção de salvadores da pátria que usam e abusam da televisão (entregue a um jornalismo de espetáculo e audiências); e das redes sociais, naquilo que elas têm de mais obsceno: a difusão da mentira como informação ao serviço de mercenários; a Democracia, território da Liberdade, ainda vencerá. Até quando?

28/01/2026
 

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