Edição nº 1932 - 4 de fevereiro de 2026

Valter Lemos
A MÁ-EDUCAÇÃO COMO ESTRATÉGIA POLÍTICA

Pertenço a uma geração em que a boa-educação era uma das primeiras preocupações dos pais e dos professores. Ser mal-educado não era socialmente tolerado. E não dependia da classe social ou do nível de escolaridade. Quer pais analfabetos, quer pais escolarizados, insistiam com os seus filhos para não serem mal-educados. Grande parte das repreensões ou dos castigos que os pais, ou os professores, davam aos seus filhos ou alunos tinham a ver com a má-educação.
E esta postura atravessou gerações em Portugal e em grande parte do mundo. Ainda hoje, em algumas culturas orientais, a má-educação é o comportamento menos tolerado socialmente.
Infelizmente já não é possível dizer o mesmo hoje em muitas sociedades ocidentais e designadamente em Portugal.
O aparecimento das redes sociais e o anonimato ou o distanciamento físico entre as pessoas, permitiu a libertação da má-educação, da asneira, do insulto. Muitos comentários são marcados por evidente má-educação e qualquer divergência redunda frequentemente em insultos.
Isto é especialmente evidente na área política. Não é só desinformação, com notícias ou factos falsos ou truncados, mas também ignorância e acima de tudo má-educação. O que, há alguns anos, era absolutamente intolerável socialmente, passou a ser “normal” e muitas vezes até valorizado ou admirado. Mostrar ignorância ou má-educação é muitas vezes visto como uma “qualidade”.
O funcionamento das redes sociais tem clara responsabilidade nesta questão, mas, as lideranças políticas também. O chamado “trumpismo” penetrou nas sociedades e nas redes e potenciou a explosão da ignorância e da má-educação, com a mimetização desses comportamentos, designadamente pelo “povo” de extrema-direita. Afinal se o homem mais poderoso do mundo pode publicamente insultar os seus adversários políticos, apelidando-os de “burros”, “doentes”, “bandidos” e tantos outros epítetos semelhantes, porque é qualquer outra pessoa não o pode fazer? Em Portugal basta fazer um comentário critico sobre, por exemplo, a política de imigração de André Ventura para ser brindado com um rol de insultos e ofensas pessoais.
Também a demonstração de ignorância passou a ser o orgulho de alguns. Se Trump não sabe que a Bélgica é um país e não uma cidade, que o Camboja não fica junto ao Azerbaijão, ou que os pinguins só existem no Polo Sul e não no Polo Norte, e tantas outras asneiras, porque é que outros não podem mostrar orgulhosamente a mesma ignorância? Em vez de uma ofensa ao conhecimento ou à verdade passou a ser uma atitude “contra as elites”! Se Trump mente descaradamente sobre estatísticas, factos científicos ou outros, porque é que políticos de menor dimensão ou mesmo qualquer outro cidadão não o pode fazer? Aliás isto passou a constituir mesmo uma estratégia política. Os líderes mentirem consciente e reiteradamente para que os seguidores sintam que não só é possível fazê-lo, como devem fazê-lo. O comportamento do deputado Pedro Frazão e outros, por exemplo, com a divulgação de vídeos truncados é exemplo disso.
Os argumentos de quem manifesta esses comportamentos é que “os outros” também mentem ou que “os outros” também insultam. É evidente que, em parte, é verdade. Mas, tal deve-se à espiral criada a partir do comportamento trumpista e dos seus aliados europeus de extrema-direita e da respetiva estratégia de ação política através das redes sociais.
Mas não contestar esta estratégia política e estas práticas de rebaixamento das relações sociais, não é uma atitude adequada. Para recuperar e manter um mínimo de qualidade e decência na vida pública é preciso contestar e rejeitar a má-educação e a mentira como comportamentos socialmente “aceitáveis” ou “normais”.

04/02/2026
 

Outros Artigos

Em Agenda

 
24/01 a 28/03
Well-being SceneryGaleria Castra Leuca Arte Contemporânea, Castelo Branco
06/02
Do Barro ao Som – Homenagem a CargaleiroMuseu Cargaleiro, Castelo Branco
12/02
A Experiência da PoesiaBiblioteca Municipal António Salvado, Castelo Branco

Gala Troféus Gazeta Atletismo 2024

Castelo Branco nos Açores

Video