Edição nº 1932 - 4 de fevereiro de 2026

Guilherme D'Oliveira Martins
NO CENTENÁRIO DE JÚLIO POMAR

“Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar” (ed. António Ramos, 1980) é ainda hoje um dos testemunhos mais importantes sobre a vida do grande pintor, no momento em que assinalamos o centenário do seu nascimento. O diálogo entre as duas personalidades demonstra bem a importância que o artista desempenha na cultura portuguesa contemporânea.
Júlio Pomar nasceu a 10 de janeiro de 1926, em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, demonstrando desde muito cedo um excecional talento. A sua primeira exposição individual foi no Porto, em 1947, e nela apresentou apenas desenhos. Nesses anos, a sua oposição ao regime de Salazar resultou em quatro meses de prisão, bem como a apreensão de um dos seus quadros pela polícia e a ocultação dos frescos, que havia realizado no Cinema Batalha, no Porto. Em 1963 instalou-se em Paris, sendo bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966. Nunca abandonou, porém, definitivamente Paris, mantendo uma relação de vida e de trabalho entre a capital francesa e Lisboa té ao fim da vida, em maio de 2018, na cidade portuguesa.
Com uma obra notável que se prolongou por oito décadas, destaca-se a sua participação na II Bienal de São Paulo (1953), e salientansdo-se as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Galerie Lacloche, Paris, 1964 e 1965), e a participação numa mostra dedicada à pintura de Ingres,  Le Bain Turc, no Museu do Louvre (1971), assim como as mostras «L’Espace d’Eros» (Galerie de la 2, Bruxelas, 1978), «Théâtre du Corps» (Galerie de Bellechasse, Paris, 1979), «Tigres» (Galerie de Bellechasse e Galeria 111, 1981 e 1982), «Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa» (Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1984, instituição que, em 1978, promovera a sua primeira exposição retrospetiva). Na Estação do Alto dos Moinhos, Camões, Bocage, Fernando Pessoa e Almada Negreiros correspondem a uma homenagem sentida do pintor aos quatro maiores poetas da língua portuguesa, pondo em paralelo a criatividade do pintor e a originalidade da palavra poética. Por outro lado, temos ainda outras importantes mostras, como: «Pomar – Autobiografia» (Sintra, Museu de Arte Moderna, 2003), «Júlio Pomar: Cadeia da Relação» (Museu de Serralves, 2008) ou «Júlio Pomar. Atirar a Albarda ao Ar» (Galeria 111 e Árvore – Cooperativa de Atividades Artísticas, 2012).
Durante a sua longa vida, nunca deixou de criar – desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas, assemblagens – inscrevendo na História da Arte obras tão importantes como O Almoço do Trolha (1946-50), Gadanheiro (1947), Varina Comendo Melancia (1949), Marcha (1946), Abriliberdade (1974), Navio Negreiro (2005-2012). A obra pública de Júlio Pomar inclui ainda os emblemáticos painéis cerâmicos da Avenida Infante Santo e do Campo Grande, a referida estação do metropolitano Alto dos Moinhos, em Lisboa, e outras intervenções artísticas realizadas em diversas cidades. Sente-se sempre, nos diferentes ciclos da sua obra, uma preocupação de se ligar à rua e aos cidadãos comuns, representando o pulsar concreto da vida humana.
Em 1990, o Ministério da Cultura francês convidou Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss, que passou a constituir uma referência na representação daquela grande referência do pensamento europeu.
No ano seguinte, Pomar pintou o retrato oficial do Presidente Mário Soares, que hoje se encontra no Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém: obra emblemática, irreverente e incontornável pela forma como desconstruiu o protocolo das representações oficiais, ligando-se à orientação moderna e iconoclasta que encontramos nas representações feitas por Columbano Bordalo Pinheiro de Teófilo Braga e Manuel Teixeira Gomes.
Com afirmou: “o esforço pode representar um prazer. A relação do dentro com o fora, o estar bem, o tirar prazer de, não é uma coisa que aconteça sozinha. É uma coisa que se procura e encontra, ou não. Esta é uma incomodidade de todos os dias, uma batalha”. Pode dizer-se que com esta afirmação, Pomar define-se. E nessa preocupação, o artista está de sobreaviso: “A realidade das pessoas é muitas vezes isso mesmo: determinarem-se a coisas para as quais não estão vocacionadas e que lhes liquida o gosto que podem ter em viver”. A atenção ao tempo e ao mundo exige, assim, a capacidade de resistência que permita entrar na batalha em plenitude. Por isso insistia ter feito durante a vida fundamentalmente o que lhe dava prazer.
Quando observamos o caminho seguido por Júlio Pomar ao longo da sua vida compreendemos, assim, uma recusa sistemática da facilidade. Desenhador exímio, talento de eleição, procurou sempre contrariar uma tendência natural, correndo o risco permanente de tentar a aventura das novas tendências, olhando com sentido crítico a realidade social e cultural que o cercava. Neste sentido, quando vemos “O Almoço do Trolha”, apercebemo-nos que há uma aguda compreensão das condições económicas e sociais e das injustiças. Tudo isso está implícito na obra e na sua mensagem. Há inconformismo, desassossego e consciência de que o artista não podia estar indiferente relativamente à ausência de liberdade. Pomar soube correr o risco de não se encerrar numa escola ou numa orientação. O neorrealismo e surrealismo encontravam-se, não como espaços dogmáticos, mas como apelos à inovação, às experiências libertadoras, ao poder ser iconoclasta. Nesse sentido, o pintor constrói e desconstrói, numa demanda persistente de uma linguagem própria e de um carácter marcante. “Varina Comendo Melancia” representa uma obra transição, com um misto de realidade e ironia, não menos crítico do que anteriormente, mas mais inesperado. Os autorretratos irónicos, o diálogo com a literatura, o retrato de Mário Soares – tudo representa a preocupação de recusa do esperável e a denúncia da acomodação ou da facilidade.

04/02/2026
 

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