João Ruivo
ENSINO SUPERIOR NO INTERIOR: UM DESAFIO INVENCÍVEL?
Nos idos anos de 2003 publiquei (editado em Separata) um extenso artigo, na Revista Sarmiento, da Universidade de Vigo, sobre “O Ensino Superior Politécnico em Portugal: História de uma Revolução Tranquila”. Nesse texto detalhava e valorava a importância deste inovador sistema de ensino no Interior do País, designadamente na zona Raiana, enquanto promotor do desenvolvimento social, cultural, demográfico e económico, dada a potencialidade de aí fixar as gerações mais jovens e atrair uma “massa cinzenta” de especialistas em diferentes domínios, que impulsionariam a investigação, em estreita ligação com o tecido social e empresarial das referidas regiões.
Em diversos artigos, publicações e conferências regressei, recorrentemente, ao tema em causa.
Destaco, designadamente, a Oração de Sapiência que proferi, em 2008, na Cerimónia de Abertura do Ano Escolar do Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB), intitulada “Os Desafios que se colocam ao IPCB, face à Internacionalização das Instituições de Ensino Superior”.
E, em 2021, na Cerimónia da Comemoração dos 30 anos da Escola Superior de Gestão do IPCB, tendo insistido nesta problemática, na Oração de Sapiência que fui convidado a apresentar: “Os Desafios do Ensino Superior: do Global ao Local”.
Decorridos todos estes anos, e tendo em conta a experiência que adquiri enquanto docente, investigador e dirigente institucional no Ensino Superior, hoje, infelizmente, posso afirmar, que pouco alterei quanto às minhas crenças quanto ao desenvolvimento estratégico e, sobretudo, quanto às variáveis de presságio negativas que, nos últimos tempos, comecei a pressentir que poderiam vir a ocorrer.
Com um sentimento de profunda perda, devo afirmar que nalgumas instituições (poucas, felizmente), com a complacência da tutela, se foi instalando uma cultura organizacional de uma deriva próxima da antropofagia, de uma concorrência desleal, como, por exemplo, o foi a consentida redundância e réplica de formações, estratégias e objetivos, que enfraqueceram, irremediavelmente, uma parte do Sistema de Ensino Superior, com particular incidência na inata fragilidade de algumas Instituições situadas no desertificado Interior, onde vivemos.
Perante esta situação, e num esforço de eterno retorno, regresso à pergunta: vale a pena manter e insistir num Sistema Binário de Ensino Superior, ou evoluir para um Sistema de Ensino Superior Binário?
Sei que vamos tarde. Mas é bem melhor que nunca…
Em boa verdade, há muito que defendo o fim do Sistema Binário do Ensino Superior (Universidades VS Politécnicos), para que se convergisse num Sistema de Ensino Superior Binário, próximo dos conhecidos modelos europeus.
Ou seja: desde que as instituições tenham o mesmo nível de qualidade, confiram os mesmos graus académicos, detenham carreiras académicas análogas, devem designar-se por Universidades. Onde surge a diferenciação? Apenas na intencional seleção dos paradigmas de Ensino/Formação por que cada uma delas opta, sendo que algumas (Universidades Politécnicas) se especializam numa orientação profissionalizante, com foco na aplicação prática do conhecimento, no desenvolvimento de competências para o mercado de trabalho, proporcionando saídas profissionais diferenciadas, dada a sinergia mantida, durante a formação, com os seus parceiros do tecido empresarial e social protocolados.
Portugal vai tarde neste domínio. As representações conservadoras sobre a escola atingiram, sobretudo, o Ensino Superior Politécnico, colocando-o, muito injustamente, num patamar de inferioridade face às Universidades, afetando, de sobremaneira, o eixo geográfico do Interior.
Perigosamente, quanto maior o risco quanto ao futuro, em algumas instituições, instalou-se o exercício de um poder de impassibilidade, acompanhado pela falta de valorização do mérito dos seus recursos humanos.
Todavia, ainda que tarde, é possível alterar esse rumo. Ainda que acredite que uma boa parte das alterações organizacionais terão de ser estimuladas de montante (pela Tutela), porque, a jusante, não vai ser fácil colocar alguns dos decisores locais a determinar quem abdica do quê e a favor de quem.
Infelizmente, a experiência, no passado, já o demonstrou. E, aí, não há possibilidade de haver qualquer evolução positiva que resista à defesa irracional da endogamia orgânica.
Indiscutivelmente, a dimensão crítica de algumas instituições virá a aconselhá-las, quer queiram, ou não, a estabelecer acordos, consórcios e parcerias de formação e de investigação, entre si.
E, no Interior Fronteiriço, uma parte da solução, também pode passar (como tenho vindo a insistir), pelos parceiros geográficos que temos aqui mesmo ao lado.
Vejamos: na educação nunca é mais importante o que se faz, do que o que ainda está por fazer. Admitir este princípio, ajuda cada passo que se dá, e apoia a dominar o terreno que se pisa na marcha seguinte. Há quem lhe chame Visão Estratégica.
Na nossa região, a UBI nunca perdeu essa Visão Estratégica, nem a janela de oportunidades proporcionada pelo Espaço Ibérico da Educação, constituindo, oportunamente, parcerias e projetos comuns com as Universidades no espaço ibérico.
Arrisco a repetir-me: as Instituições do Interior só teriam a ganhar com a constituição de consórcios, de convénios, de parcerias e, aí, incluindo projetos de Formação/Investigação, designadamente com as Universidades Raianas, como, por exemplo, o são as de Salamanca e da Extremadura.
Tal proporcionaria, com tempo, trabalho, e hábil Visão, a edificação de uma nova Centralidade Ibérica, que abrangesse Instituições de Ensino Superior, mais robustas e competitivas, contrariando a humilhante Periferia, e a indigna interioridade a que nos condenaram.
Até agora, a indiferença e a imobilidade própria de alguns provincianos poderes, apenas têm garantido a sua mitigada sobrevivência. A intencional manutenção de inexplicáveis autonomias; a organização arquipelágica e autofágica a que se chegou nalgumas instituições, conduziu algumas dessas organizações a uma dimensão perigosamente crítica, o que não augura nada de bom…
Daí que toda e qualquer parceria de reforço, crescimento e desenvolvimento seja presságio da obtenção de resultados de reconstrução, inovação e crescimento.
Infelizmente, houve quem quisesse travar uma batalha de trincheiras. Construíram uma narrativa antropocêntrica, transmediática, a gosto próprio, deixando-se arrastar pelas mais implacáveis leis do mercado liberal e concorrencial do Ensino Superior.
Chegou o tempo de perscrutar as organizações que podem ser Pólos Aglutinadores e dinamizadores desta Reconstrução do Ensino Superior na Região do Interior. Não temendo perder hoje alguns privilégios, em função dos ganhos do amanhã, que a nova Centralidade poderá proporcionar, num contraciclo desta drástica interioridade.
(Ex Vice-Presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco)