Lopes Marcelo
FILHO ILUSTRE DA NOSSA TERRA
Era uma vez um menino que, no final do século XIX, nasceu no seio de uma das famílias albicastrenses mais influentes - Francisco Tavares Proença Júnior – único filho varão destinado a obter um grau académico e a continuar a carreira política de seu pai.
Contudo, jovem inteligente e irrequieto, de forte personalidade, afirmou a sua autonomia e vocação perante a família conservadora, dedicando-se à arqueologia e realizando uma enorme obra em poucos anos (em que se destaca a criação do Museu), já que suportando uma insistente tuberculose, faleceu aos trinta e três anos. A vida, a grande e valiosa obra de Francisco é mal conhecida entre nós. Contudo, deixou-nos muitas publicações, cartas e cadernos de campo que constituem um notável espólio documental, muito significativo para entendermos o intenso labor da dedicação à sua vocação. Vale a pena dar voz a Francisco em alguns dos momentos mais marcantes da sua vida. O primeiro, situa-se na visita a Londres, em 1900, com apenas dezassete anos:
O maior deslumbramento foi no Museu Britânico. Foi extraordinário o mergulhar na evolução da nossa civilização e conhecer as manifestações da antiguidade com os artefactos e monumentos vindos de tantas partes do mundo aqui reunidos. Aprendi que toda a história tem um sentido de evolução humana que muito me atrai. Sinto que me poderei realizar no campo do estudo das lições do passado aí na nossa região.
Um outro momento muito significativo aconteceu quando Francisco discordou frontalmente do destino que o pai lhe destinava de forma autoritária, cena já retratada em duas peças de teatro:
Pai: Sabe filho, agora que a sua saúde melhorou, está isento do serviço militar e obtive a portaria ministerial de admissão à Universidade, importa decidir o seu futuro considerando a continuidade da nossa casa e da sua carreira…
Francisco: O papá ia a dizer, da minha carreira política…Mas eu tenho opinião e não estou interessado nessa política que se resume a caçadas, a guerras partidárias, a jogos de poder e a arregimentar votos…
Pai: bem…Isso se verá mais tarde. Mas é indispensável a universidade. É meu desejo que curse direito, que ainda é a melhor base…
Francisco: Mas papá, eu preferia letras. Bem sabe o meu gosto pela literatura e, sobretudo, o meu amor pela obra de Camillo Castelo Branco. Atá já comecei a tratar da sua biografia…
Pai (descontente): Ora Francisco, já não chegava o menino devorar livros sobre arqueologia e ainda vem insistir com o romantismo das tragédias e comédias do desventurado Camillo? Está decidido. Vai cursar direito. Vá lá para Coimbra, sem a carta de bacharel nada feito.
Sabemos que Francisco foi para Coimbra cursar direito cumprindo a vontade de seu pai, mas por pouco tempo, pois teve a coragem de enfrentar seu pai e assumir a sua vocação das investigações arqueológicas, tornando-se útil ao seu país, à nossa região e, sobretudo, à Comunidade Albicastrense.