Maria de Lurdes Gouveia Barata
MARÇO E A PRIMAVERA E A POESIA
AGORA
Abre-te, primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.
Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.
Miguel Torga, Diário X (S. Martinho de Anta,31 de Março de 1968)
Agora, como o título do poema de Miguel Torga, chegou Março e esperamos a Primavera. Só de ouvir esta palavra enche-nos duma esperança de mudar, mesmo com nuvens no firmamento, mesmo com a recordação do comboio de tempestades, num aparato de estrépito violento de ventos fortes, de chuvas intensas, insistindo na ocupação de territórios, campos inundados, pondo em risco a futura subsistência alimentar e casas invadidas, expulsando famílias. As marcas de destruição são ainda feridas abertas. E o mar? Foi colérico, impaciente de raiva e os que não presenciaram de perto viram e imaginaram, no longe que as imagens transportaram, a altura das espumas que o batimento na terra provocou. Alto, muito alto, chegaram as ondas para nos obrigarem a esbugalhar os olhos. As ruas das cidades transformaram-se em rios descomandados pela fúria. A Natureza torna-se cada vez mais agressiva com os erros humanos que a agridem. Ainda parece haver gente que não acredita nas alterações climáticas! Ou alguns fingem, porque convém a uma ganância pessoal e estúpida?
A Natureza não pede licença para se exprimir com violência, mas também não pede licença para insistir na chegada da Primavera! E toda se exibe em mostrar-se de verdes novos, debruados de florinhas campestres amarelas, piscando olhitos de sol, que eu vejo nos jardins que posso olhar da minha varanda. A Primavera é o emaravilhamento do renascer sempre ressuscitado, das cores variegadas do arco-íris, do cheiro da terra emanando a fertilidade. Um amante da Primavera foi sempre o poeta António Salvado («Primavera», Jardim do Paço):
Das flor’s primeiras o perfume aspiro…
É primavera, dizem! Derradeira,
a chuva molha ainda o ar…
Mas tiro
de sobre mim a solidão: e inteira
renasce a luz.
Um pássaro atravessa
o céu do nosso espírito a cantar…
E eis a primeira rosa, a lídima promessa
que nos abriu os olhos e nos fez sonhar!
Do poema vou reter os dois primeiros versos da última estância: «Um pássaro atravessa / o céu do nosso espírito a cantar…», porque enaltecem o bem que faz a Primavera ao nosso espírito – o pássaro pode nem existir na realidade exterior, mas ouve-se cantar dentro de nós pela alegria primaveril. E vêm as rosas com o seu simbolismo de beleza, amor e paixão, a que se associa a pureza divina. Daí que seja lídima promessa.
A propósito, não esqueçamos que 21 de Março comemora o Dia Mundial da Árvore e o Dia Internacional das Florestas, alertando para a importância da preservação das árvores e das florestas no equilíbrio ambiental. A data foi escolhida em homenagem à chegada da primavera no hemisfério norte, que representa o renascimento da Natureza e o início de um novo ciclo de vida. O vigor desse renascimento exibe-se na pujança das florestas onde as árvores se tornam exuberantes. Diz Pablo Neruda em «Ode à Fertilidade da Terra» (Odes Elementares): «Para ti, fertilidade, verde / entranha, / matéria mãe, vegetal tesouro, / fecundação, plenitude, / eu canto, / eu, poeta, / eu, erva / raiz, grão, corola, / sílaba da terra, / agrego as minhas palavras às folhas, / subo aos ramos e ao céu. (…)». Diz Eugénio de Andrade em «Árvores» (Os Sulcos da Sede): «Sem fadiga, as árvores regressam / ao poema. (…)». Como podemos não sentir um calafrio ao lembrar a recente tempestade Kristin? Ficámos siderados, quando ouvimos a informação que onde passou essa tragédia houve entre cinco a oito milhões de árvores perdidas, decepadas ou arrancadas pela raiz, algumas delas centenárias! Por isso, quero deixar a última estância do poema «Declaração de Amor» de António Gedeão: «É através de ti, ó Árvore, que celebro os esponsais entre mim e a Natureza. / É através de ti que bebo a nuvem fresca e mordo a terra ardente. / É de ti que recebo as leis do Amor e da Beleza. / Amo-te, ó Árvore, apaixonadamente!» (Máquina de Fogo).
Apesar da Primavera, continuam a passar outros comboios de tempestades humanas. As notícias falam de guerras, de injustiças, de gente cansada da destruição e da morte. Há conflitos, tensão e medo. Mas prefiro voltar neste AGORA à Primavera e à poesia.
21 de Março traz ainda outra celebração: a do Dia Mundial da Poesia. Com início em 1999, instituído pela UNESCO, teve por finalidade homenagear a expressão poética, promovendo a leitura, a escrita e o ensino da poesia, preservando tradições orais e reconhecendo o papel desempenhado na identidade cultural. Esse papel é igualmente importante na salvaguarda da diversidade linguística. No mundo dominado pela pressa e pela tecnologia, encontramos, com a poesia, a pausa da reflexão e da beleza que podem contribuir para um modo de sobrevivência. Pode mesmo assumir um valor terapêutico pela força das palavras com um feitiço de meditação. A poesia tem o poder de emocionar, inspirar e transformar o ser humano e pode ser uma forma de resistência. Disse Torga: «A vida anda possessa de poesia!» (Ode à Primavera). Disse Gedeão: «Todo o tempo é de poesia» («Tempo de Poesia»). A poesia faz-nos ouvir o ritmo secreto da vida e perceber que há beleza até nas imperfeições. Mesmo no meio do caos, ainda existe espaço para o sonho e para a esperança. Termino com os três últimos versos do poema de Gedeão:
(…)
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.